A Trofa que o Ernesto sonhou

Earthship

O meu nome Ernesto, Ernesto Jovial.

Vocês não me conhecem, porque na realidade, eu não existo. Nasci na imaginação de alguém e, se assim o entenderem, posso ser designado por heterónimo, alter-ego, amigo imaginário ou fruto da loucura de uma mente.

Sou um jovem alegre, de bem com a vida e que vê sempre o lado positivo das coisas. Sou um optimista sonhador que acredita que a vida é uma bênção e que todos os Homens são iguais, não no mesmo sentido que as mulheres muitas vezes advogam, mas no sentido dos direitos humanos, da liberdade e do livre arbítrio.

Resido na Trofa. Não, não é essa Trofa. Quer dizer, é e não é… Esta Trofa onde resido, tal como eu, também não existe na realidade, pelo menos na vossa. É uma Trofa utópica, criada na imaginação da mesma pessoa de onde surgi.

No que respeita a locais imaginários e utópicos para se viver, considero que não há cidade melhor que a minha Trofa, e este é o principal motivo; todos os Trofenses amam profundamente a sua cidade. Tudo fazem pela sua comunidade e pelo bem-estar colectivo. “Mas oh Ernesto, qual é o cidadão que não ama a sua terra?” – perguntam vocês – “uma grande parte!” – respondo-vos eu. Se todos os cidadãos amassem profundamente as suas terras, as coisas seriam bem diferentes, para melhor…

Esta maravilhosa Trofa utópica onde eu resido nem sempre foi assim, um sonho para se viver. Na verdade não foi de forma nenhuma, porque acabei de a inventar… Mas imaginemos que houve uma altura, em que a Trofa era apenas uma cidade-dormitório. As pessoas trabalhavam nas cidades circundantes e limitavam-se a vir dormir à Trofa. Não havia grande sentimento de pertença à terra. Aliás, já houve esse sentimento, mas perdeu-se nas brumas do tempo com o desaparecimento dos conterrâneos mais velhos… Por este motivo, raramente acontecia alguma coisa importante e interessante. À medida que o tempo foi passando e a cidade crescendo, foi aumentando também a distância social entre os residentes, a ligação entre vizinhos desvaneceu-se e as pessoas tornaram-se quase desconhecidas. As ruas desertas acusavam o desprezo contínuo das pessoas pela convivência e nem mesmo o “bom dia/boa tarde” escapou… Todos se ignoravam. Uma névoa cinzenta e amarga tomou a cidade, resultado da indiferença que acidificou as relações entre os seus habitantes… Esta realidade, aguçou a fome de poder de alguns, que sob pele de cordeiro, se tornaram verdadeiros lobos sem escrúpulos e sem consciência, que se banqueteavam da gamela comunitária… Quase todos os recursos existentes na cidade e que eram pertença da comunidade, desapareceram…

E ninguém quis saber do assunto.

No entender dos cidadãos, não era nada com eles. As suas próprias vidas já lhes tomavam todo o tempo disponível e as preocupações de cada um eram prioritárias. Afinal de contas, o sentimento geral era de que a Trofa era apenas um aglomerado de casas, prédios, caminhos e estradas, becos e vielas, onde as pessoas passavam apenas algumas horas, para dormir. Nada mais que isso…

Até que um dia… Tudo mudou.

Sem qualquer explicação lógica, e da noite para o dia, ao estilo “Ensaio sobre a Lucidez” de José Saramago, todos os trofenses acordaram com uma estranha sensação, nunca antes sentida. Um súbito e genuíno sentimento de cidadania. De repente e sem motivo aparente, ser Trofense tornou-se num motivo de profundo orgulho. Nos cafés, nas padarias, nos empregos, nas escolas, todos sentiram a sensação indiscritível que era ser da Trofa. Surgiram abraços, elogios, sorrisos, gargalhadas, beijinhos, palavras de apreço e lágrimas de alegria! Que emoção inexplicável era aquela? Todos se questionaram sobre o sucedido.

O que terá provocado tal acontecimento? Uma intervenção divina? Drogas? Epifanias Colectivas Simultâneas? Cada um deu a sua teoria, mas mais importante que isso é que todos concordaram que o que realmente interessava era a nova situação em que se encontravam. Todos testemunharam na primeira pessoa, a alvorada do que viria a ser uma nova Trofa. No dia seguinte, quando todo o frenesim provocado por aquela transformação colectiva acalmou, todos os cidadãos trofenses reuniram-se no centro da cidade, cada um munido de entusiasmo, vontade de mudança e ideias fantásticas para por em prática em prol da comunidade. Todos, sem excepção, quiseram contribuir com uma ou várias ideias para rejuvenescer a Trofa. Que dia lindo, esse! Foi no dia 19 de Novembro, coincidentemente ou não, o feriado municipal da Trofa.

Lembro-me de tudo como se tivesse sido hoje, até porque esta parte da história que agora vos conto foi escrita hoje de manhã, portanto, é natural que me recorde bem de tudo. De todas as ideias e sugestões fornecidas pelos “recém-nascidos” trofenses, foram selecionadas as mais absurdas e com mais dificuldade de execução, porque são essas as que fazem maior diferença e que têm maior impacto.

Uma vez que esta história é minha, e sou eu quem a controla, quis o destino que algumas das ideias mais votadas pelos meus conterrâneos, fossem também as minhas.

Na minha condição de sonhador optimista, sempre sonhei com coisas quase impossíveis e utópicas, porque apesar de acreditar que no Mundo há mais pessoas boas do que más, tenho plena consciência de que as más que existem, são o suficiente para gerarem obstáculos colossais, quase intransponíveis… Quase. Este “quase” é importante porque demonstra que apesar de difícil, não é impossível, porque ainda que minúscula, existe uma janela de oportunidade para fazer diferença de forma positiva. Mas adiante!

No dia em que se deu a transformação colectiva de cidadania trofense, logo me surgiram inúmeras ideias para pôr em prática, em prol de uma cidade melhor, e que prontamente apresentei. Destaco as principais:

– Fazer da Trofa uma cidade “comestível”

Confesso que esta ideia não é original, porque foi inspirada na cidade inglesa de Todmorden. Quando vi o vídeo numa sessão TED sobre o que os cidadãos desta cidade fizeram, fiquei fascinado. Um grupo de residentes daquela cidade juntou-se e sem qualquer tipo de autorização legal, começaram a plantar vegetais e árvores de fruto por todo o lado. Qualquer pedaço de terra público foi transformado numa espécie de horta, ao ponto de até no jardim da frente da esquadra da polícia terem plantado milho, tomates e feijão. Nos passeios públicos, em vez das típicas árvores decorativas, colocaram árvores de fruto. Resultado desta iniciativa? Atraíram curiosos de todo o lado, criaram um roteiro turístico, assinaram parcerias com as escolas locais para o estudo e manutenção das plantações e incentivaram o contacto entre os habitantes, de todas as idades e escalões sociais, entre muitos outros resultados positivos. Com uma pequena iniciativa, estimularam a economia local, criaram postos de trabalho e ocupações e, o melhor de tudo, obtiveram desta forma comida gratuita que está ao dispor de todos. Não acreditam? Vejam o vídeo!

– Construir um belo castelo na Trofa

Ah! Que ideia ridícula! Até eu a acho parva, mas o que é certo, é que foi uma das ideias mais votadas pelos trofenses. Na verdade não foi, mas faz de conta, porque a ideia é minha e eu acho-a interessante, ainda que de difícil execução…

No caso desta ideia, foram várias as minhas fontes de inspiração. Recordo um artigo sobre Justo Gallego Martínez, um senhor espanhol de 88 anos que decidiu construir sozinho uma catedral no terreno que tinha herdado. Sentiu um chamamento divino e, sem dar qualquer importância aos que lhe chamavam de louco e que diziam que era impossível, decidiu por mãos à obra. Está há 50 anos a construí-la com materiais reciclados que obtém no lixo, materiais oferecidos pela comunidade, entre outros que encontra por exemplo em construções abandonadas. Porque não imitá-lo?

Uma construção deste género poderia ser aproveitada de muitas formas. O edifício seria utilizado como espaço para exposições, conferências, workshops, concertos, peças de teatro, espaço museu, entre muitas outras utilizações, para além que seria uma forte atração turística. Estranho? Não acho que seja. A cidade de Bilbau por exemplo, viu-se completamente transformada depois de o Guggenheim ter aberto portas. Quem diria que a cultura estimulava e transformava uma cidade, hein?

Não é novidade. Grandes empreendimentos arquitectónicos ao longo da História provaram-no. Seja o Taj Mahal na Índia, construído a mando de Shah Jahan em memória da sua esposa favorita, seja o Palácio da Pena em Sintra, existem inúmeros exemplos de construções que marcaram uma era e que alteraram por completo o destino dos locais onde se encontram. Custaria muito dinheiro? Talvez sim. Ou talvez não. Dependeria da vontade de o concretizar. Há imensas formas de se financiar um projecto desta envergadura seja através de crowdfunding, patrocínios de empresas locais, incentivos ao empreendedorismo social… Entre muitos outros.

Quantos terrenos estão ao abandono na nossa cidade? Quantos edifícios se deterioram e morrem devagar na nossa Trofa? Quantos profissionais da nossa terra, das mais variadas secções laborais, poderiam contribuir com o seu saber para um projecto deste género? Arquitectos, pedreiros, eletricistas, designers, pintores, escultores… Todos poderiam contribuir, ainda que pouco, mas seria uma contribuição.

Poderia ser construído como uma Earthship por exemplo. Não sabem o que é uma Earthship? Uma Earthship é uma casa construída exclusivamente com desperdícios, como garrafas de vidro, latas de bebidas, pneus e outros materiais reciclados… É auto-suficiente e à prova de catástrofes. O conceito foi criado pelo arquitecto americano Michael Reynolds e revolucionou a forma como se olha para a arquitectura e a sua sustentabilidade.

A construção de um Castelo do séc. XXI na Trofa, seria um incentivo à união social, uma forma de os que têm tempo livre se ocuparem, e um grande desafio para a comunidade que, não tenho dúvidas, o superaria.

Realço ainda o projecto Evadream, um sonho de Tó Romano, figura conhecida no meio português, responsável pela criação de uma das maiores agências de modelos, histórica, em Portugal – a Central Models. O sonho de Tó consiste em transformar, literalmente, Portugal num jardim à beira mar plantado. Tó Romano, sonhou que Portugal era o país mais florido do mundo e a primeira iniciativa deste movimento chama-se “Bairros Floridos de Lisboa”. Tudo começou com um sonho…

– Criar a Universidade da Vida da Trofa

É certo e sabido que qualquer terra que tenha uma Universidade é uma terra de referência, mas em Portugal, infelizmente já existem demasiadas universidades. No entanto, a Universidade que proponho ser criada na Trofa é uma Universidade diferente das convencionais… Por esse Facebook fora, não faltam perfis de pessoas que mencionam a Universidade da Vida como o seu local de formação mas, após uma breve pesquisa, constatei que essa Universidade na verdade não existe. Não passa de uma metáfora para indicar que foi a vida quem lhes ensinou o que sabem. Esta questão lembrou-me o argumento de um filme, desses que davam ao Domingo à tarde na rubrica “Chiado Terrace”, antes dos canais nacionais serem invadidos por programas fúteis “760”, como o Portugal em Festa. O filme em questão chama-se Accepted (“Admitido” em português) e conta a história de um estudante americano que, não tendo conseguido entrar em nenhuma das universidades a que se candidatou, decide ele mesmo criar uma, numa tentativa de enganar os pais e não ter que lhes contar que não entrou na Universidade.

A parte interessante deste filme é que, sem contar, o protagonista do filme cria um conceito inexistente até então, ou seja, uma Universidade da Vida, onde se pode aprender de tudo. As aulas e os temas ensinados ficam ao critério de quem quiser ensinar o que sabe, ou do que os alunos pretendem aprender. Um “must see”!

A Universidade da Vida da Trofa seria, portanto, um local de formação onde qualquer pessoa poderia ensinar e/aprender o que quisesse, desde como fazer uma omelete, como pintar um quadro, como fazer tricot, como escrever uma história, como tratar de um jardim, como mudar uma fralda, como fazer magia, como ser mais feliz… Seria um local didático de referência, único e exclusivo no nosso país.

Ao apresentar estas ideias à comunidade trofense, surgiu-se-me uma ainda melhor: porque não juntar as três ideias numa só? Genial!

Construir um Castelo Moderno do séc XXI, que funcionará como Universidade da Vida e no terreno circundante, erguer-se-á um belo jardim comestível repleto de árvores de fruto e vegetais que estarão ao dispor de quem quiser.

Todas as ideias sugeridas pela população foram tidas em conta e após votação democrática, as melhores foram postas em prática.

E assim começou uma nova era na Trofa.

Claro que tudo isto não passa de ficção, de uma utopia, mas não seria de todo impossível de concretizar…

Bastaria haver vontade. Vontade das pessoas, vontade politica, vontade sobretudo, de evoluir. Uma comunidade unida, tolerante e empreendedora é mais forte e mais feliz. Será possível tornarmos os nossos sonhos e as nossas utopias, uma realidade?

Eu acredito que sim, porque eu sou o Ernesto Jovial, o homem mais feliz e optimista da Trofa!

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