A obra é nossa

my precious

Ou como diz o Smeagol, my precious

No habitual enquadramento paleolítico do espectro político-partidário português, é frequente assistirmos à prática demagógica e eleitoralista à qual carinhosamente gosto de chamar “a obra é nossa”. Entre outras deturpações da realidade, tal prática dá origem a manipulações verdadeiramente absurdas que levam determinados boys e girls inúteis a dizer barbaridades como “ai e tal estivemos na linha da frente” quando a única linha da frente que a maior parte dessa gente conhece é a linha da frente dos arruaceiros que fazem esperas e depois tentam aldrabar a história com tanta elevação e qualidade quanto se bajulam, a eles e aos seus queridos líderes. Coitados, querem a todo o custo viver à sombra dos nossos impostos e estão dispostos a tudo pois sabem que terão sempre o partido para lhes limpar as lágrimas quando o peso da falsidade e da falta de carácter lhes tirar o sono à noite. Mas não é com documentos de três páginas cheios de banalidades, apresentados numa qualquer associação de convivas amigos do tacho que se situam as linhas da frente. E na linha da frente, o interesse comum deve estar sempre à frente de interesses corporativos, não o contrário. Adiante.

Pegando em exemplos passados, tem sido comum ver as filiais trofenses dos partidos do arco da (des)governação reivindicar com fervor que as obras são deles. O PSD reivindicou de forma ruidosa que a nova estação de caminhos-de-ferro era uma obra deles. 100% deles. Quem lê isto de forma superficial poderá ficar com a ideia que os militantes do PSD tinham feito uma colecta interna e financiado, do seu bolso, a construção da estação. Ou mesmo que os fundos e a estratégia europeia para a via ferroviária nada tinha que ver com este assunto. Errado: foi com o dinheiro dos impostos de todos e só possível devido à acção do governo nacional e das instituições europeias que aprovaram o co-financiamento da obra. A autarquia calhou de, na altura, ser liderada por um social-democrata. Poderia ter sido socialista ou um autarca de outro partido qualquer e o resultado seria exactamente o mesmo. O resto é propaganda barata de quem não tem mais argumentos para se agigantar e precisa, a todo o custo, de mostrar que fez ou serve para alguma coisa.

O PS também tentou, apenas com sucesso entre parte das suas fileiras, reclamar a obra de união dos parques como sendo sua. Com ligeiras diferenças de natureza superficial, aplicam-se os princípios acima usados. Importa aqui referir que um bom responsável político nunca necessitaria de fazer tais anúncios. Quando em campanha, os potenciais presidentes de câmara, de junta ou membros da Assembleia Municipal (“deputado” no idioma de alguns deles) colocam permanentemente a tónica no sentimento de servir a população, na dedicação à causa pública e no quão desnecessário é para eles exibir estandartes. Importante é trabalhar e, tanto quanto possível, low profile. Uma vez no poder as prioridades invertem-se e o discurso altruísta começa a desaparecer para dar lugar, na maior parte dos casos, ao “culto do chefe”.

Claro que na prática nada disto acontece. A maioria deles precisa destas coisas para manter as pessoas recordadas do quão importantes são. Há sempre um fotógrafo em cada obra que os responsáveis políticos visitam para imortalizar o momento e – porque é isto que verdadeiramente interessa – mostrar as pessoas que se está junto do problemas, mesmo que a foto seja tirada e o fotografado abandone imediatamente o local, após 25 segundos de lá ter chegado.

Vem isto a propósito de ser altamente expectável que a espécie de variante que aí vem, rebaptizada de “circular” será em breve reivindicada como “mais uma obra 100% PSD”. E desenganem-se aqueles que acreditam que seria diferente se o PS estivesse no poder. Até porque, do pouco que sei ainda sobre esta versão micro da obra inicial que nos prometeram em tempos idos, é expectável que fique pronta em 2017. E o que acontece em 2017? Isso mesmo: eleições Autárquicas. E já agora, segundo ouvi também, em que altura arrancará a obra? Imaginem só: no terceiro trimestre deste ano. Entre Julho e Setembro. E o que acontece logo a seguir? Coincidência das coincidências, as próximas Legislativas acontecem entre meados de Setembro e meados de Outubro. Tanto se pediu uma calendarização e ela apareceu. E mais conveniente para as intenções eleitorais do PSD/CDS-PP não poderia ser. Isto, claro, se até lá PSD e CDS-PP continuarem de mãos dadas. O que, no panorama nacional, parece cada vez menos provável e dependente de sua majestade o irrevogável.

Nunca é demais recordar que os responsáveis políticos, locais ou de nível nacional, foram escolhidos para desempenhar uma função. São bem remunerados, beneficiam de inúmeras regalias inalcançáveis para o comum dos mortais, podem reformar-se relativamente cedo e tiveram a oportunidade de construir uma óptima rede de contactos que certamente os impedirá de algum dia virem a  conhecer o sabor amargo do desemprego. Nem que isso tenha implicado um contrato ruinoso para a autarquia ou ministério onde exerceram funções. Mais: PS e PSD partem SEMPRE à frente de qualquer força política porque o sistema de financiamento eleitoral, moldado por estes dois partidos, irá beneficiá-los indefinidamente. Por isso caros trofenses, quando vos vierem com esta treta da obra ser do partido A ou do partido B, lembrem-se que as obras são nossas e quem está no poder está lá para servir a Trofa e os trofenses. Fazer obra com o dinheiro de todos e depois apresentá-la como se fosse um feito de um partido é um insulto à nossa inteligência.

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2 Responses to A obra é nossa

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