Não tenham medo

Medo(para quem nunca viu, fica aqui o trailer do filme V for Vendetta. vale bem a pena…)

Um dos princípios basilares das democracias constitucionais europeias, onde o nosso “rectângulo” e por conseguinte o “território diamante” se inserem, é que a soberania de um Estado reside no povo que a delega poderes através do voto. Quer isto dizer que a população de um estado soberano como o nosso opta por atribuir poderes executivos e/ou legislativos aos seus pares mediante a aprovação de um projecto político plasmado num programa de trabalho. Infelizmente, na esmagadora maioria das vezes, acabamos por descobrir que fomos enganados por políticos sem carácter que em campanha disseram aquilo que o povo queria ouvir de forma a obterem o seu voto, revelando-se de seguida um verdadeiro embuste. O exemplo de José Sócrates com os seus 150 mil empregos ou as falsas promessas de não subir impostos ou vender os “anéis” com que Passos Coelho iludiu o eleitorado são disso exemplos.

Com o massificar da internet, com especial destaque para as redes sociais, e da velocidade de circulação de informação que isso implicou, a forma como a política é feita vem sendo alterada de forma radical. Se num passado não muito distante o acto de dar o dito por não dito era uma prática comum e regra geral usada pelo político manipulador com notável eficácia, dar o dito por não dito é hoje uma tarefa hercúlea porque há sempre alguém a ver. Sempre. E dai até à informação se disseminar pelo Facebook é uma questão de minutos.

Vem isto a propósito dos vários leitores que me têm abordado nas últimas semanas, na sequência de ter trazido a público, aqui e na minha coluna d’O Notícias da Trofa, situações altamente suspeitas relacionadas com ajustes directos que, como fiz questão de recordar na passada Sexta-feira, não são um exclusivo da coligação PSD/CDS-PP. Da mesma forma, também o dualidade de critérios é algo transversal aos diferentes partidos que se alternaram no poder na Trofa desde 1998, que só se indignam com os ajustes directos assinados pelos seus adversários políticos. Eu, que não tenho memória curta nem selectiva, lembro-me de quando o PS estava no poder a JSD Trofa enchia a boca para falar de ajustes directos. Onde estão eles agora quando situações idêntica levadas a cabo pelo seu partido começam a emergir? Em lado nenhum. Para quem coloca o partido à frente da Trofa, o problema dos ajustes directos não são os ajustes directos em si mas quem os leva a cabo. O mesmo se aplica ao PS Trofa, agora liderado pelo até há pouco tempo líder da JS Trofa, que durante o mandato anterior não abriu a boca para falar em ajustes directos mas que agora nos vem dizer que não concorda. Enfim, mudam-se as opiniões em função do posicionamento face ao poder. Querem ser diferentes mas acabam por ser praticamente iguais. Já nós somos meras estatísticas para efeitos eleitorais que se instrumentalizam em função das necessidades momentâneas destes actores.

Clarificados estes pontos, vou debruçar-me sobre o que me traz aqui hoje: o medo. Inúmeros conterrâneos trofenses têm-me abordado recentemente, e entre os diferentes tipos de abordagem, existem dois aos quais gostaria de dedicar algumas linhas.

O primeiro tem a ver com aquelas pessoas que me dizem que concordam com o que por aqui vão lendo, que incentivam o trabalho desenvolvido no E a Trofa é Minha, que conhecem situações de promiscuidade, do primo do tio do irmão que até recebeu uma panela de determinado autarca para pagar o favor ao avô do padrinho do filho do senhor doutor, que se sentem revoltados com aquilo que vêm e que sabem ser verdade, mas que têm medo de falar e de sair da sua zona de conforto porque a mãe trabalha na CMT, a filha está a estagiar no liceu e a pessoa em questão tem um negócio aberto e não quer correr o risco de represálias. Para além da imensa revolta que se apodera de mim ao perceber que em democracia existem pessoas com medo de serem livres de dizer o que pensam com medo de represálias, o que até se percebe num concelho onde responsáveis políticos fazem esperas e dão porrada nos seus adversários, entristece-me perceber que muitas destas pessoas não percebem que é nelas que reside o verdadeiro poder, que todo e qualquer político só governa porque elas assim decidiram. NÃO TENHAM MEDO: como nos relembra a personagem V no filme V for Vendetta, “O povo não deve temer o seu governo, é o governo que deve temer o seu povo”. Denunciem o que está errado. Por vocês, pelos vossos filhos e pelo futuro da vossa terra.

Em segundo lugar, o argumento mais recorrente que me chega aos ouvidos/ecrã é aquele que faz referência ao facto de “serem todos iguais e como tal não vale a pena mudar ou sequer perder tempo a votar“. Vamos lá ver uma coisa: se é verdade que as diferenças entre PS, o PSD e o CDS são cada vez mais difíceis de identificar, não é menos verdade que existem dezenas de outros partidos, da extrema-esquerda do MRPP à extrema-direita do PNR. Não me compete dizer que, entre estes partidos, o partido A é melhor que o partido B mas antes que nenhum deles, por muito que gostemos ou não dos mesmos, não têm qualquer responsabilidade no estado a que isto chegou, logo à cabeça porque nunca governaram. Este argumento, como não poderia deixar de ser, é altamente benéfico aos partidos do centro, os verdadeiros responsáveis pelo lamaçal em que nos encontramos, no sentido que os coloca a eles, os verdadeiros responsáveis, no mesmo patamar que todos os outros que não têm responsabilidade nenhuma. Junte-se a isto a fábula do voto útil e voilá, o assalto não tem fim. Existem alternativas caros leitores: procurem-nas, analisem-nas e decidam em consciência. Não têm que ser sempre os mesmos. Muito menos temos que ter medo de mudar.

Posto isto, e porque já me alonguei demais, queria deixar uma mensagem de esperança e de força a todos os nossos leitores: NÃO TENHAM MEDO. Não tenham medo de questionar, não tenham medo de denunciar irregularidades, não tenham medo de represálias daqueles que na verdade nos devem servir e não servir-se de nós, não tenham medo de seitas, não tenham medo de votar noutros partidos, não tenham medo de fábulas orquestradas por elites capazes de tudo para se manterem no poder, não tenham medo de sair da vossa zona de conforto e, acima de tudo, não tenham medo de ser livres. Porque vocês são livres. Mas para o serem plenamente, é fundamental que façam essa escolha que ninguém pode fazer por vocês. Não tenham medo de escolher. Escolham ser livres.

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3 Responses to Não tenham medo

  1. Jorge Carmona says:

    João, se calhar não é um questão de medo mas de dependência, resultante da preparação que foi feita ao longo destes anos em que tornaram as pessoas dependentes dos empregos públicos e que depois não lhes permite expressarem-se ( o problema da mãe que trabalha na Câmara, da filha que está a estagiar não sei aonde).
    Não há ponto sem nó, senão vejamos o que se passou durante décadas com o Alberto João em que praticamente conseguia ter um elemento (às vezes até mais do que um), de cada família a trabalhar ou dependente da Câmara ou de outros serviços públicos. Depois na hora das eleições só bastava relembrar a situação e lá voltava aquele anormal (desculpem mas não consigo outra designação), a ganhar novamente.
    Por isso é que a situação é delicada quanto às denúncias, etc..
    Agora nas eleições e enquanto o voto ainda é secreto, aí sim, devemos aproveitar e fazer valer a nossa opinião ou pelo menos expressá-la pelo menos para ficarmos de consciência tranquila e na expetativa de que as “coisas” mudem.
    Portugal já recuperou grande parte do atraso em relação à Europa (falava-se em 50 anos de atraso), mas só do ponto de vista material pois o principal que é o atraso cultural, está na mesma e esse é o nosso problema: VER E PENSAR PARA ALÉM DO NOSSO UMBIGO. E como sempre esta situação tem de partir dos comandantes do navio e cabe-nos a nós escolhê-los.

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