Um ano depois – Parte III: Um comunicado vago e repetitivo. Esperava-se mais deste PS

O comunicado do PS começa com uma “gralha” – manipulaçãozinha se preferirem – comum neste tipo de análise que é já um clássico. A menos que, claro, o PS tenha auscultado as dezenas de milhares de trofenses a quem se refere quando afirma, no segundo parágrafo do seu comunicado, que “os trofenses sentem-se preocupados e desapontados com o seu futuro e o do concelho“. Sim, digam isso às 10092 pessoas que votaram na coligação, que lhes deram o controle de quase todas as freguesias e que parecem continuar a apoiar a acção deste executivo sem grandes reservas. São estratégias de comunicação. Mas não deixa de haver uma manipulação pensada no sentido de dar dimensão a uma onda de indignação que, apesar de se justificar em alguns casos, simplesmente não é real. Mas deixemos as manipulações de lado e passemos ao que realmente interessa.

A direcção concelhia do PS começa este comunicado com 3 acusações ao actual executivo. A saber:

  1. A ausência de uma estratégia para o concelho;
  2. A falta de capacidade interventiva;
  3. O desinvestimento na Educação, Acção Social e Cultura.

São três acusações que, considerando a leitura integral do documento, pecam por um defeito comum que mina por completo a sua substância: são demasiadamente vagas. O documento volta a insistir nestas acusações, de forma pouco clara, mas faltam dados mais concretos que as sustentem. Em que medida não existe uma estratégia para o concelho? Quererá o PS dizer que o executivo anda ao sabor do vento e o seu planeamento pura e simplesmente não existe? Com base em que dados? Falta de capacidade interventiva? Interventiva como? Nos equipamentos públicos? Na cultura? Na sociedade? Nas acessibilidades? E o desinvestimento na Educação, Acção Social e Cultura? Exactamente que números sustentam estas acusações? Será uma mera referência à questão dos livros? Tudo muito vago. Não quero com isto dizer que se tratem única e exclusivamnte de falsidades. Apenas que tais acusações devem vir acompanhadas com algo mais concreto que as sustente. São muitas perguntas e poucas respostas. Assim não vamos lá.

A questão da falta de estratégia é depois colada à própria figura do presidente Sérgio Humberto (SH), acusado pela direcção do PS de não ter “preparação” e “aptidão” para “lidar com alguns domínios da governação. A que domínios de governação se referem? E a falta de preparação e aptidão baseia-se exactamente em quê? Tudo muito vago. Mas já agora, e fica a pergunta no ar, exactamente que “preparação” e “aptidão” tinha Joana Lima quando iniciou funções à frente da CMT que a distinguisse assim tanto do seu sucessor? Estará o PS esquecido do estado em que deixou o Parque das Azenhas? O tal que estava em perfeitas condições para ser inaugurado e que depois se transformou num dos maiores flops do anterior executivo e que trouxe à superfície o carácter rasca e desprezível de alguns dos integrantes das suas listas? Mais perguntas sem resposta, mais do mesmo…

Passando do vago para o concreto, o comunicado puxa de um dos mais sólidos trunfos socialistas, um daqueles que por muita propaganda que as hostes da coligação queiram emitir simplesmente não conseguem desmontar, e que tem a ver com o reequilíbrio das contas da autarquia e sobre o qual escrevi por altura da campanha. É referido que foi graças ao executivo que a autarquia recebeu 29 milhões de euros para pagamento de dívidas a fornecedores e acusa SH de não ter sabido gerir essa almofada, apesar de uma das primeiras iniciativas deste executivo ter sido precisamente o pagamento de dívidas antigas a fornecedores. O PS pagou a fornecedores, o PSD/CDS pagou a fornecedores, mas ainda há muitos fornecedores literalmente “a arder”. Tal não invalida que o PS tenha feito um óptimo trabalho da redução de despesas correntes da autarquia, da mesma forma que não invalida que haja já trabalho feito no pagamento de dívidas antigas por parte do actual executivo. O resto é o habitual arremesso de lama entre os partidos irmãos do bloco central.

Das gestão financeira para a Educação, o PS acusa o actual executivo de se demitir “de privilegiar a educação das nossas crianças e jovens” para a seguir se resumir ao argumento gasto, sobre o qual as opiniões se dividem, e que diz respeito à entrega de livros escolares a todas as crianças do concelho. Pessoalmente, e apesar de já ter tido as minhas dúvidas, sou totalmente contra uma distribuição integral pelo simples motivo de que não faz sentido pagar livros escolares a crianças de famílias de classe média-alta e alta. Não faz sentido, é demagógico. Faria sentido se vivêssemos num país organizado e bem gerido mas como não somos, é preciso focar os recursos no essencial. E se o PS tem queixas quanto a este capítulo podia começar por entregá-las por escrito no Largo do Rato. Podemos discutir os critérios de elegibilidade, podemos discutir outros critérios de gestão e alocação de recursos mas, num concelho altamente endividado como o nosso, é preciso fazer escolhas coerentes. Os nossos impostos não devem pagar livros a pessoas que auferem rendimentos acima da média. Essa é uma falsa igualdade, uma igualdade demagógica que serve uma agenda política, nada mais.

De seguida, o comunicado faz uma estranha ponte entre este suposto desinvestimento na Educação e os gastos em comunicação ou, conforme se pode ler no comunicado, “marketing e propaganda oca”, através das empresas que sustentam o projecto político deste executivo. É interessante verificar que existe aqui uma acusação implícita muito óbvia de promiscuidade que, uma vez mais, peca por excessivamente vaga. E neste caso por falta de coragem também. A quem se referem? É que o termo “empresas” remete-nos para mais que uma e o único caso, que eu tenha conhecimento e que é do domínio público diz respeito ao contrato celebrado entre a CMT e a Flexisílaba Publicações Lda, que este blogue deu a conhecer em primeira mão e que diz respeito aos 20 mil euros mencionados neste comunicado. E os restantes 200 mil euros? A quem foram adjudicados? Quem são essas outras empresas? Que serviços foram estes? Que documentação serve de prova a estas acusações? Uma vez mais, os ataques são ferozes mas pecam por falta de substância. Se o PS pretende informar o cidadão está a fazer um péssimo trabalho. Podia começar por revelar as informações que lhe permite formular estas graves acusações que devem ser reveladas à população. Outra vez vago. Mas que termina com um dado interessante, quando o comunicado regressa à estranha ponte referida no início deste parágrafo para dizer que este executivo se preocupa mais com marketing e propaganda do que com o futuro das suas crianças. Se formos por ai, então o anterior executivo preocupava-se mais com determinadas empresas de construção do que com as nossas crianças. É que as centenas de milhares de euros de diferença entre o orçamento mais barato para a construção do novo parque e aquele que ganhou o concurso davam para pagar muitos livros. Com jeito até ao secundário se pagavam.

A crítica seguinte vai para o Cinetrofa, que na minha opinião é uma óptima iniciativa. Ficou aquém das expectativas? Com certeza. Foi mal publicitado? De forma alguma: a publicidade foi massiva e percorreu as freguesias do concelho. Falhou no planeamento e na execução? Também não me parece. Eu estive em duas sessões e tudo correu às mil maravilhas. Mas efectivamente, e aí assino por baixo, falhou redondamente na capacidade de atrair os Trofenses. Aí fracassou. Mas pegar nos 62 mil euros gastos para voltar a falar nos livros é pura demagogia e ilustra bem a falta de objectividade e argumentos deste comunicado. Então e a semana da juventude do ano passado, praticamente às moscas, quanto custou? Ai essas memórias selectivas…

O comunicado refere também, no mesmo parágrafo, ajustes directos que levantam dúvidas relativas à sua transparência. Ajustes directos feitos no âmbito do Cinetrofa? A quem? Para que efeito? Porque raio emite o PS um comunicado com tantas acusações vagas e nebulosas? Se a intenção é informar os Trofenses, então está uma vez mais a fazer um péssimo trabalho porque desta forma apenas alimentam especulação e boatos. Ou apresentam provas concretas ou voltamos ao campo da demagogia. Para quem se indignou tanto com outros boatos do passado, esta postura é no mínimo irónica.

As acusações deslocam-se de seguida para alegadas limitações no acesso à informação que o executivo deve disponibilizar aos partidos da oposição, indo mesmo mais longe e acusando também a equipa de SH de instigar o conflito e de protagonizar episódios “grotescos” de tratamento da oposição. Uma vez mais uma acusação grave colocada de forma vaga. Se estas situações se verificam, é necessário esclarecê-las, perceber exactamente em que consistiram e confrontar directamente o executivo com elas. Episódios “grotescos” de tratamento da oposição são extremamente graves e os Trofenses devem saber exactamente a que é que se referem, sob pena de serem consideradas meras manobras de propaganda. Se o executivo leva a cabo estes episódios grotescos então não é digno de exercer funções. Sejam objectivos!

O comunicado passa de seguida para o campo das promessas não cumpridas, campo particularmente caro para os socialistas que deixaram promessas fundamentais pelo caminho como os Paços do Concelho ou o metro. Mas o PS refere 4 promessas específicas: a empresa têxtil que se ia instalar na Trofa, que não foi uma promessa eleitoral nem consta do programa da coligação, apesar de bem instrumentalizada pela claque da direita; as estradas nacionais que iam ser requalificadas e que, apesar de estarem ainda longe do ideal estão muito melhores do que estavam em 2013. Aliás, é importante deixar claro que não existe qualquer referência no programa da coligação a um compromisso de requalificar inteiramente as estradas nacionais no primeiro semestre de 2014. Até pode ter sido dito em comício mas não consta do programa. O comunicado refere ainda, e com razão e meu ver, a questão do preço da água e os pontilhões que continuam a ser um empecilho no centro da UF de Bougado. O caso do preço da água é particularmente preocupante uma vez que somos o concelho com a água mais cara do país.

O comunicado termina regressando à acusação de ausência de uma estratégia para o concelho. Apesar de não ser claro quando às lacunas na mesma, refere-se o pagamento das dívidas da CMT, algo que já está a ser feito e que, convenhamos, não foi o forte do anterior executivo, volta à questão da Educação e da Acção Social, ainda que a única referência objectiva seja, uma vez mais, a questão dos livros, encapotada por trás de uma propagandística alusão ao “futuro das nossas crianças”, e alude ainda à questão do IMI, que como sabemos não está na esfera de decisão do poder local.

Em suma, estamos perante um documento de mero ataque ao executivo, com alusões de cariz populista, muito focado no elogio da gestão financeira do anterior executivo e na questão dos livros escolares. São feitas várias críticas de enorme gravidade, sem que uma única prova seja apresentada, o que poderá ter o resultado oposto ao pretendido pelo PS. Para além disso, este comunicado é incapaz de reconhecer os avanços feitos na requalificação da rede viária, na solução encontrada para a Savinor e noutros aspectos já descritos na análise anterior que aqui foi feita. Estamos portanto perante um exercício de eleitoralismo, onde existem críticas muito válidas mas onde faltam dados objectivos que comprovem a esmagadora maioria acusações feitas. Confesso que estava à espera de um pouco mais. Se o PS quer fazer valer estes argumentos, vai ter que se esforçar bastante por prova-los um a um, sob pena deste comunicado ficar na história como um mero exercício de propaganda política de um partido que tem responsabilidades em vários dos temas que agora usa para criticar o actual executivo.

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4 Responses to Um ano depois – Parte III: Um comunicado vago e repetitivo. Esperava-se mais deste PS

  1. Subscrevo tudo o que aqui se afirma!!!
    Há que fazer críticas (algumas até possivelmente pertinentes) mas há que fundamentá-las para merecermos crédito.
    Uma oposição só é credível se construtiva, fundamentada e competente.
    Um executivo só é útil se perante uma oposição desse tipo, souber ouvir e aproveitar as suas críticas para o bem comum dos habitantes do seu município.

  2. Joaquim Azevedo says:

    É evidente que qualquer denuncia deverá ser fundamentada, mas por exemplo em relação aos insufláveis que foram colocados no dia Mundial da Criança foram debitados por faturação no valor aproximado de 50.000 Euros, e esta hem. Mas ainda há muito mais….

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