Um ano depois – Parte I: O vídeo catita que nos diz que está tudo bem

Começo a análise ao primeiro ano de governação do executivo liderado por Sérgio Humberto pelo vídeo em cima. Quem fez este vídeo? Foram os técnicos da CMT? Não, foi a Spin Comunicações. Quanto custou? Houve concurso? Trata-se de mais um ajuste directo? É que eu conheço uma mão cheia de trofenses habilitados a fazê-lo e seria importante perceber em que condições este trabalho foi atribuído, principalmente devido ao recente escândalo de favorecimento da empresa proprietária do Correio da Trofa. Mas vou usá-lo como ponto de partida para esta análise, deixando as variáveis aqui omitidas para a parte II.

Existem alguns elementos de mera propaganda neste vídeo. Exactamente o que significa “sem deixar ninguém para trás”? E que, se a memória não me falha, ficaram muitos jovens para trás por altura da semana da juventude por não terem sido dadas facilidades de acesso ao evento aos jovens residentes nas freguesias mais afastadas de Bougado. E não me parece que o problema fosse dinheiro, pelo menos a julgar pelo artistas e montantes envolvidos. Mas vamos então ao vídeo:

  • Começamos por negociar a baixa do preço da água e conseguimos”: lamento mas isto não é bem verdade. O que aconteceu foi uma negociação de um aumento do preço inferior ao inicialmente previsto, o que não nos salva de sermos o concelho do país onde a água é mais cara. Há aqui muito trabalho a fazer e estamos longe de uma situação sequer aceitável. Apresentar este facto como uma vitória é autentico disparate;
  • Conseguimos baixar em 40% (as rendas de edifícios alugados à CMT)”: esta sim, uma vitória deste executivo, já referido neste blog em Novembro pelo que não me irei alargar. Fica aqui uma vez mais o link;
  • Reorganizamos os serviços da CM: a Via Azul Simplifica é o único exemplo sonante desta reorganização e ainda não existem dados concretos que comprovem um salto de eficiência face ao passado dado a ser algo ainda muito recente. Foi uma medida importante na desburocratização dos serviços municipais mas estes serviços não se esgotam aqui. Não deixa, contudo, de ser um ponto a favor do actual executivo;
  • Reduzimos o número de dirigentes”: reduzir o número de dirigentes, por si só, é pouco. É preciso perceber, com dados objectivos, se esta redução é sinónimo de menos despesa e, simultâneamente, do mesmo nível de funcionalidade dos serviços camarários. Perceber quem saiu e qual o critério para a extinção de um posto e não do outro. Para além disso, é fundamental perceber onde foram alocados os recursos que se pouparam com esta redução. Trata-se de algo muito vago que carece de mais sustentação mas que, até prova em contrário, é mais um ponto a favor do executivo;
  • Começamos a pagar aos fornecedores”: apesar do montante usado para este pagamento ter sido negociado pelo anterior executivo, esta não pode deixar de ser uma boa notícia. Mas é imperativo que os trofenses percebem que o actual executivo não sacou este dinheiro da cartola: foi o executivo anterior que o negociou, o actual limitou-se a usá-lo. E ainda existem muitas dívidas por pagar;
  • Fomos tapando os buracos literalmente”: no que diz respeito à rede viária, é inegável que se nota uma evidente melhoria, principalmente na freguesia de Bougado, mas há ainda muito por fazer, nomeadamente nas estradas secundárias no interior das freguesias ou mesmo no troço da N14 que atravessa o Muro e que ainda tem muitas tampas sublevadas e buracos. A chamada “curva da morte” junto à Confexgil está imprópria para suspensões. Existem obras em andamento e as perspectivas são animadoras mas o arranjo feito no troço de acesso à A3 roça o anedótico, quando reparamos que, após a intervenção, o troço continua tortuoso. Quem lá passa diariamente sabe do que falo. Quanto aos buracos financeiros, exactamente a que buracos se referem? Se estamos única e exclusivamente a falar da dívida do concelho, dívida essa que tem origem maioritariamente na anterior governação social-democrata, convenhamos que não estão a fazer mais do que a sua obrigação. Para além de que o governo central obriga a esse ajustamento. Não há aqui muita ciência, é pura e simplesmente a obrigação de um executivo responsável. A sua função. Da mesma forma que não elogio o carteiro que coloca uma carta numa caixa do correio, não vou elogiar um executivo por fazer o que lhe compete;
  • O regresso da luz à via pública”: este é um aspecto muito discutível por dois motivos em concreto: por um lado, porque ainda existem locais com postes desligados (a minha rua esteve literalmente às escuras pelo menos duas vezes durante este ano de mandato). Por outro lado, é importante referir que essa responsabilidade é agora da EDP e não da CMT. Foi à EDP que tive que recorrer da última vez que a minha rua ficou às escuras, pelo que, aqui, CMT e estado chinês terão que partilhar o ponto;
  • Apostamos na Acção Social”: se é verdade que o número de cabazes triplicou, não é menos verdade que a acção social não se resume a uma esmola na época de Natal. Seria importante que o executivo fosse mais claro e apresentasse números mais objectivos sobre esta aposta, sob pena da mesma ser vista como mera especulação. Em tempos de profunda crise e pobreza envergonhada, é bom relembrar as palavras de João Pedro Costa sobre a quantidade de refeições que se poderiam dar aos mais desfavorecidos se não se gastasse dinheiro em outdoors inúteis e do campo da propaganda. Ainda sobre este tema, o vídeo refere a duplicação do investimento no apoio aos mais carenciados. Também aqui é fundamental que sejam apresentados números concretos que comprovem estas afirmações, caso contrário voltamos ao campo da especulação;
  • Ao movimento associativo dissemos que podiam contar connosco e assim tem sido“: ainda existem associações com queixas, tal como no tempo do anterior executivo. Este é sempre um tema que levanta algumas dúvidas, pois já no tempo do anterior executivo existiam associações que se mostravam satisfeitas e acompanhadas e outras que afirmavam o contrário. O cenário, tanto quanto é possível verificar, e à falta de dados objectivos, é basicamente o mesmo;
  • Fomos ter com os empresários e fizemos com que acreditassem na Trofa”: muito vago. Em que se traduz essa abordagem? Existe investimento a caminho do concelho? Tanto quanto sei, não se instalou nenhuma nova empresa no concelho – posso estar enganado, não tenho o mesmo grau de acesso à informação que as pessoas no poder – e a única empresa que vinha, a tal empresa tunisina que chegava à boleia do “orgulho trofense“, não parece estar nem perto de chegar. É por estas e por outras que não convém abusar deste “orgulho“;
  • Temos estado ao lado das pessoas, recebendo os munícipes“: aqui, verdade seja dita, não há nada que se possa apontar ao executivo Sérgio Humberto. É sabido que a CMT tem estado de portas abertas para a população, e que, inclusive, o executivo tem recebido munícipes nas tardes de Sexta-feira quando em tempos ninguém trabalhava à Sexta à tarde. E o presidente dá o exemplo. Eu próprio já fui recebido (e bem recebido) por duas vezes. Mas, tanto quanto sei, o anterior executivo também recebia os trofenses. Também eu fui recebido na CMT no anterior executivo pelo que me questiono se, para além da adição das tardes de Sexta-feira, se alguma coisa realmente mudou;
  • Diminuímos a dívida cortando nas gorduras” – faltam números que sustentem esta afirmação. Colocar um folheto nas caixas de correio dos trofenses a informar que tal aconteceu com um gráfico muito básico como espécie de comprovativo é vago, não garante a veracidade dos valores e não explica aos trofenses exactamente como se operou essa redução e em que gorduras se cortou. E se o actual executivo herdou 7 milhões de euros de dívida de curto prazo do anterior, é sempre bom não esquecer que o anterior herdou largas dezenas de milhões de euros de dívidas também;
  • Aposta na cultura: a única grande referência foi o Cinetrofa, que apesar de ser uma óptima ideia, não só o evento principal em si mas também os eventos secundários que correram a Trofa, foi uma aposta sem grande resposta por parte dos trofenses no que toca aos 4 dias do evento principal. Eu estive lá, vi filmes entre meia dúzia de pessoas, e convenhamos que só no dia da fotografia é que o auditório efectivamente encheu. É importante recordar que este evento teve um custo avultado, acima de 60 mil euros, bem abaixo da tão criticada vinda da Volta a Portugal à Trofa que mobilizou muita, mas muita mais gente. E a cultura não se esgota num festival de cinema;
  • Aposta na juventude: uma das apostas que mais me agradaram foi a manutenção do OPJ, excelente prática que alguns membros da claque do actual executivo gostariam de ter extinto. Ainda bem que o bom senso imperou. Mas o grande destaque foi sem dúvida a semana da juventude, que apesar de ter sido um evento com uma escala nunca antes vista no concelho, ficou também marcado por inúmeros erros amadores, erros esses que não se percebem face ao elevado investimento que envolveu. Sobre isso muito foi escrito neste blog pelo que não me irei repetir. Fica o link para os interessados;
  • Aposta na educação: exactamente em que é que consistiu esta aposta? Nas obras no parque escolar que estavam já em curso? Se estamos a falar de pequenas reparações pontuais, talvez fosse importante relembrar que essa é uma das responsabilidades da autarquia e que a mesma não se deve vangloriar por fazer o seu trabalho. Mas não quero deixar de destacar dois aspectos: que a alteração no procedimento de oferta de livros escolares ao primeiro ciclo é, no meu entender, coerente e muito corajosa, e que aquisição do terreno junto à Escola Giesta 1, com vista a alargar a via e proporcionar mais segurança aos utentes, é digno de registo;
  • Resolvemos o problema com 30 anos da Savinor“: para o final o grande highlight que distingue o trabalho deste executivo. O problema dos maus cheiros da Savinor é algo que perturba a qualidade de vida de muitos trofenses há muitos anos. Conseguir uma solução para o mesmo é provavelmente o feito que mais contribui para a melhoria do bem-estar de mais trofenses no concelho. Mas é importante relembrar que o problema não está ainda resolvido e que os cheiros continuam a incomodar muita gente. Talvez fosse mais sensato fazer disto uma grande conquista quando o problema estiver efectivamente resolvido, que ainda não está. Fica ainda aqui um link sobre o que foi dito sobre este tema no E a Trofa é Minha.

O resto do vídeo é conversa de encher chouriços, mais orgulho trofense, menos orgulho trofense. Paleio de saco. O essencial está dito mas ainda existem alguns aspectos relevantes a referir, que por um motivo ou outro não foram considerados neste vídeo. Fica para o próximo artigo que este já vai longo! Muito obrigado aos que aguentaram até ao fim.

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3 Responses to Um ano depois – Parte I: O vídeo catita que nos diz que está tudo bem

  1. Manuel Carvalho says:

    Tudo o que está escrito, está escrito. Um ano de governação da coligação PPD / CDS, nada mudou em relação ao pretérito, a Trofa estagnou, pouco ou nada palpável se vê, muita propaganda, quase nenhum ou mesmo nenhum progresso, como diz o povo, ” Muita parra pouca uva”, no meu modesto entendimento, todas estas medidas realmente não saíram do papel e estão escritas, isso é só isso.

  2. Pingback: Diz que é uma espécie de variante | …e a Trofa é minha!

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