Europeias 2014: o boicote do Muro

MURO

Começa a tornar-se um hábito: depois das Presidênciais de 2011, a população da freguesia do Muro voltou a impedir a abertura das urnas na sua freguesia a aproveita o dia para, sob o olhar atento dos media, dar continuidade a um protesto legítimo depois de anos de mentiras eleitoralistas com cartazes desonestos e secretárias de Estado à mistura.

Penso que não valerá a pena desenvolver o problema que afecta estes trofenses. A história é antiga e prende-se com a desactivação da antiga via estreita que ligava a Trofa ao Porto através das estações da Trindade e Avenida de França, com a promessa, nunca cumprida, de repor a normalidade com a vinda do metro até ao nosso concelho. Algo que tanto PS como PSD já apresentaram como dado adquirido. Mentiras e flores que ficaram por plantar.

Enquanto tal não acontece (se é que algum dia virá a acontecer), o população do Muro continua a ver-se confrontada com graves problemas de mobilidade que já tive oportunidade de referir neste espaço. A congestionada – e desprovida de variante alternativa – Estrada Nacional 14 continua a ser a única alternativa para estas pessoas. Algumas delas acabaram por abandonar a freguesia ou o concelho em busca de uma localidade com melhores acessos. Quem não percebe o grau absurdo deste problema que tente fazer o exercício mental de entrar à N14 todos os dias de manhã na recta que liga ao semáforo da Carriça. Se a situação na Trofa está o que está por causa das obras do parque imaginem a situação destas pessoas…

Mas como em tudo, existe sempre alguém que não acha grande piada a estas situações. Ou porque não reconhece o direito à indignação, ou porque entende que as queixas não são legítimas ou porque, crítica recorrente, acredita que tais protestos têm origem em tacticismos de Carlos Martins.

Eu tenho a felicidade de conhecer o presidente da Junta de Freguesia do Muro pessoalmente. Um homem íntegro e alheio a carreirismos, que conta com o apoio em massa da população do Muro, algo que se explica pelos resultados que vai obtendo na freguesia, eleição após eleição, com ou sem partido a apoiá-lo. Contudo, os críticos de Carlos Martins apontam-lhe o dedo pelo facto de não ter havido boicote nas últimas autárquicas onde ele era o mais forte candidato. Não reconheço qualquer coerência a estas críticas na medida em que o tema em discussão – o metro – em nada tem a ver com a política local do Muro ou mesmo da Trofa. Trata-se de um processo decisório nas mãos do poder político nacional e europeu. Da Trofa só chegaram mentiras eleitorais pela mão de Bernardino Vasconcelos e Joana Lima. E quem assiste às AM’s do nosso concelho sabe bem de que “matéria” é feito Carlos Martins.

Espero sinceramente que a população do Muro continue a protestar até que lhes sejam apresentadas alternativas. Até lá, a Batalha do Muro por melhores acessibilidades que lhes permitam conservar empregos e ter acesso ao mesmo nível de vida que os trofenses de Bougado deverá ser uma prioridade da sua população.

Força Muro!

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8 Responses to Europeias 2014: o boicote do Muro

  1. Gabriela Phalempin says:

    Não sendo minha intenção desprestigiar a luta por melhores acessibilidades da população do Muro, não posso deixar de discordar em absoluto com qualquer boicote eleitoral. Votar significa escolher, ter a opção de escolha, pelo que a abstenção é uma demonstração de desinteresse. Aliás, redunda numa perda de legitimidade, por parte de quem a pratica, em criticar (positiva ou negativamente) quem quer que seja, seja pelo que for.
    Contudo, o ponto do presente artigo que me levanta vários pontos de exclamação prende-se com o tema – o Metro – que, aparentemente, nada tem a ver com as eleições em causa. Na verdade, as eleições autárquicas (Administração Local do Estado) prestam-se a eleger os representantes locais perante a Administração Central. Assim, não faz sentido legitimar o “não boicote” destas em face às do passado dia 25. Curiosamente, a forma como decorreu a campanha eleitoral em todo o país, centrou-se nas quezílias internas, sem qualquer menção ao projecto europeu ou à nossa indubitável ligação ao mesmo.
    Em suma, todos os actos eleitorais transportam-nos, de uma forma mais ou menos directa, a quem nos governa no momento, pelo que não posso aceitar o argumento do autor do presente artigo como válido.

    • João Mendes says:

      Olá Gabriela Phalempin,

      Votar significa escolher quem os partidos políticos nos permitem escolher. A Abstenção é uma das formas de expressão que a democracia coloca à nossa disposição para manifestarmos o não-alinhamento com as forças políticas existentes. Mas o boicote eleitoral e a abstenção não são a mesma coisa.

      Quando referi que para mim fazia sentido não boicotar as autárquicas, disse-o porque não são os autarcas, muito menos os presidentes de junta, que decidem sobre estas questões. É nas dimensões nacional e europeia que se decidem questões como o metro e a não vinda do mesmo está umbilicalmente ligada aos dois últimos governos e ao garrote da austeridade imposto por Bruxelas.

      Sendo eu um cidadão que nunca se absteve de exercer o direito ao voto, não posso também concordar que o voto nos “transporta até quem nos governa no momento” pelo simples facto de sermos constantemente enganado por falsas promessas.

      • Gabriela Phalempin says:

        Caro João,

        Mais uma vez estamos em desacordo. O boicote eleitoral é um golpe publicitário, independentemente das legítimas reinvidicações de uma comunidade. O voto em branco é uma forma legítima de exercer as tão aclamadas conquistas democráticas, não a abstenção. Votar em branco, mas deslocar-se às urnas e exercer o direito de voto, é o resultado de um exame de consciência que eventualmente nos revela de que não nos revemos nas opções apresentadas. Por outro lado, não votar é sinónimo de anarquismo e leviandade. A abstenção, de resto, nunca foi um bastião democrático.
        Por fim, se as questões de um núcleo populacional não são preocupação do poder local, mas apenas central e extra-fronteiras, poderíamos suprimir aquele. Como a única forma de fazer chegar todas as “notícias” ao poder central resulta da rede de governação praticada no nosso país (e em todos), também o Metro é responsabilidade e pocupação da respectiva Freguesia e Município.

  2. João Mendes says:

    O boicote eleitoral pode ser um golpe publicitário mas também o é a actuação dos partidos. Será que estes são mais “reais” do que um boicote propagandístico como o parece considerar a Gabriela?

    Se o Muro tivesse votado em branco, ainda que 100% da população fosse votar, tal não teria efeito algum para os seus habitantes. Não querendo dizer que o boicote provou qualquer tipo de eficácia na resolução do problema do metro até à data, pelo menos a atenção do país já conseguiu ter. Se é por esse prisma que o considera “publicitário” então convenhamos que é da melhor publicidade que podem fazer a sua causa.

    As aclamadas conquistas democraticas devem ser um pouco mais que poder escolher o eleito das elites partidárias. De que me serve votar num “Passos Coelho” que promete mundos e fundos e faz tudo ao contrário quando chega ao poder? É para isso que votamos? Mas repare que eu não me oponho ao voto (referi em cima que fui votar e acrescento que o fiz em todos os actos eleitorais desde que atingi a idade necessária), apenas reconheço como legítima a decisão de boicotar as eleições, o que é muito diferente. Não considerar esta opção seria uma limitação à liberdade de escolha consagrada na lei, penso que ainda não chegamos ai. Colar esta opção ao anarquismo e à leviandade é, na minha opinião, um completo absurdo.

    Finalmente, eu não disse/escrevi em lado nenhum que “as questões de um núcleo populacional não são preocupação do poder local, mas apenas central e extra-fronteiras”. “Decidir” e “preocupar” não são a mesma coisa. E ainda que o tivesse dito, tal não implicaria, de modo algum, a necessidade de suprimir o poder local porque a sua função não se esgota na gestão das infraestruturas de transportes.

    Acrescentar ainda que discordo em absoluto quando diz que “a única forma de fazer chegar todas as “notícias” ao poder central resulta da rede de governação praticada no nosso país”. Um exemplo que contraria a sua generalização: as petições. E existe uma que foi assinada por mais murenses do que aqueles que parecem querer votar.

  3. Gabriela Phalempin says:

    Gostaria apenas de tentar compreender como, usando da abstenção, se consegue fazer aproximar o poder de uma questão em particular. Aliás, para quem coloca tanto enfoque no Governo português e nas decisões europeias e, bem assim, suas particulares consequências na questão do Metro na Trofa, esquece-se das elações que se retiram dos valores da abstenção por toda a Europa. Assistimos a nações inteiras “dizer” à UE que estão completamente alheios à sua estrutura e instiuições; que não têm a mais pálida ideia do seu modo de funcionamento e, como tal, não vislumbram necessidade de eleger seja quem for; enfim, que tão pouco compreendem a interligação entre o poder nacional e europeu. Como é esta a forma de reivindicar algo?
    A UE tem que se reestruturar se pretende sobreviver, mas não a reconhecer é suicídio puro.
    Valorizo as petições, obviamente, mas recordo-me particularmente de duas que, não obstante a necessidade de conhecerem a luz do dia e serem amplamente divulgadas, caíram por terra. Curiosamente, duas relacionadas com Direito. Assim, mantenho a posição aqui defendida e, com todo o respeito que demonstro perante quem pensa diferentemente, exijo que me brindem de igual forma.

  4. João Mendes says:

    Se a Gabriela quer perceber o pensamento/ideologia daqueles que defendem o reforço da abstenção como forma de reformar politicamente um país, terá que perguntar a alguém que defenda esse tipo de ideias. Não sou a sua pessoa. Pessoalmente defendo que se deve exercer o direito ao voto mas reconheço legitimidade à opção pela abstenção. A Democracia é feita de escolhas.

    Eu não me esquecidas ilações que se tiram dos valores da abstenção na Europa. A Gabriela é que não perguntou a minha opinião e eu não achei relevante dá-la. As ilações são obviamente assustadoras. Combinada com o avanço da extrema-direita e apesar do poder dos burocratas se manter absoluto, a abstenção é preocupante, na minha opinião, por dois grandes motivos, entre outros: porque demonstra, como a Gabriela referiu, que os cidadãos da União se estão nas tintas para Estrasburgo e Bruxelas e porque essa gigante abstenção (penso que chegou a 80% algures) é muitas vezes solo fértil para o reforço das fileiras da extrema-direita. Mas teve um efeito interessante sabe? Perante a dimensão do problema, ouviu-se Merkel, Cameron, Hollande, Durão e aquele senhor que é o presidente do Eurogrupo e que tem um nome esquisito que não me apetece pesquisar a falar na necessidade de criar emprego. Será que os burocratas não viram a Le Pen a vir? Incrível. Pode ser paleio de saco (as usual) mas pode também ser o início de uma viragem, não resultante do estado a que isto chegou mas da ameaça nacionalista que já não vive num “guetto” e pode muito bem vir a tomar a pátria da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” de assalto em breve. Eles estão cientes disso.

    Voltando ao boicote, ambos sabemos que ele é mais simbólico do que solução mas é uma manifestação de um grupo, que pode ser uma freguesia, várias ou todas. Eles têm o direito de se recusar a participar. É a tal coisa das escolhas que constituem a Democracia.

    A UE tem muitas caras. A nossa UE precisa de ser profundamente reformada. A dos burocratas sempre esteve bem assim. E se não está melhor para nós, “99%”, é porque mais do que nos abstermos, nos demitimos muitas vezes da vida em sociedade e permitimos que as ervas daninhas se espalhem com facilidade. Na Europa e em muitos países como Portugal.

    Para terminar, não sei se quis dizer que se sentiu desrespeitada com a sua frase final. Se assim foi, por favor diga-me onde para que me possa retratar. Não o notei nem tive a intenção. Todas as opiniões são aqui bem vindas desde que não desrespeitam as regras do blog. Mesmo daqueles que não reconhecem legitimidade democrática à opção pela abstenção quando esta deriva de algo tão fundamental como a liberdade de escolha. Aqui só se arrisca a ser desrespeitada se desrespeitar. O que não penso que seja o que pretende.

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