Europeias 2014: longe dos holofotes, perto da população

PCP

(Foto: O Notícias da Trofa)

Longe dos aparatos que caracterizam as campanhas eleitorais dos partidos do “arco”, o primeiro partido a fazer-se à estrada e a falar em eleições europeias na Trofa foi o PCP, quando há mais de um mês atrás promoveu uma acção de esclarecimento pelas ruas da Trofa.

Pelo que me foi dado a perceber pela peça d’O Notícias da Trofa, os comunistas trofenses andaram pelo concelho a distribuir prospectos com as suas propostas para o futuro da Europa, acompanhadas de críticas duras ao rumo da governação do país. O discurso, excessivamente centrado nas questões internas (de resto em linha com o debate em torno das Europeias, onde não se ouve uma palavra sobre a Europa que não tenha a ver com a política de austeridade), gira muito em torno dos direitos dos trabalhadores e da libertação do “Pacto de Agressão”. Mas continua pouco objectivo quanto à solução proposta e, principalmente, quanto ao seu enquadramento na periferia de uma Europa pouco interessada em “revoluções”.

O NT recolheu algumas declarações de membros do PCP Trofa. Atanagildo Lobo fez referência à denúncia continua da catástrofe para onde este governo tem arrastado a sociedade portuguesa. Clarividente, o militante comunista lamentou esse triste sintoma do qual a sociedade portuguesa padece e que diz respeito ao hábito enraizado de manter o poder nas mesmas mãos, ora PS, ora PSD (com a ocasional muleta), partidos que já provaram, várias vezes e ao fim de 40 anos desta espécie de democracia, que não encontram soluções para os problemas estruturais da sociedade portuguesa. Não podia estar mais de acordo.

Atanagildo Lobo faz ainda menção ao dilema com que o povo português se depara relativamente ao futuro da UE e do Estado Social, alegando que, caso o caminho do empobrecimento se mantenha e não se conseguirem manter as condições mínimas para uma existência digna, principalmente nos países da periferia da União, será necessário reabrir (alguma vez terá estado verdadeiramente fechada?) a discussão sobre a construção europeia e sobre a moeda única. Se é verdade que a Europa “a duas velocidades” não tem apresentado resultados satisfatórios, não é menos verdade que um abandono do projecto produzirá retaliações gravíssimas contra Portugal, que se poderão materializar numa situação de isolamento o que, na condição periférica de Portugal, se torna ainda mais grave.

Ricardo Garcia, amigo de longa data e colunista no mesmo jornal, já num registo mais europeu, falou na necessidade de rejeitar os políticos e as políticas europeias, referindo o revês europeu da atribuição das verbas necessárias para a construção da tão aguardada variante. Já Miguel Alexandre, candidato à presidência da Junta da União de Freguesias de Bougado nas últimas Autárquicas, reforçou tratarem-se de eleições “importantes e fundamentais” com um apelo ao reforço da votação de esquerda (NOTA: o Partido Socialista actual não se enquadra neste reforço por se situar hoje na esfera da direita, algo que ficou claro com a defesa de Assis de uma coligação à direita com o PSD) e ao combate à abstenção.

Quase um mês depois foi a vez de Mariana Silva, candidata d’Os Verdes ao PE, passar também pelo nosso concelho. Num discurso mais orientado para uma óptica ecologista, a candidata centrou o seu discurso no problema dos transportes, assumindo o compromisso de levar o dossiê do metro a discussão em Bruxelas. Em linha com as traves mestras ideológicas do seu partido, Mariana Silva apelou ao reforço da utilização do comboio, o que poderá implicar a reabertura das linhas desactivadas. A freguesia do Muro agradeceria.

A candidata ecologista fez ainda referência à importância da obra dos parques e reforçou a importância destas europeias para os trofenses no sentido de ser a União a principal financiadora de projectos como a união dos parques ou o Parque das Azenhas. Pena que a mesma UE permita a gestão danosa desses fundos por autarcas que se arrogam o direito de entregar obras a empresas que orçamentos inflacionados e incapazes de cumprir prazos e outras condições pré-definidas, gerando as habituais derrapagens, tão costumeiras neste país.

É para mim difícil, senão mesmo impossível, não concordar com a esmagadora maioria destes argumentos. Sim, existe um “Pacto de Agressão”, com epicentro em Berlim, que pretende colocar países periféricos do Sul a pagar as aventuras financeiras dos bancos do centro da Europa. Sim, o nosso governo é cúmplice e radical executor dessa tendência que, apesar da propaganda ultra financiada, não consegue mostrar-nos grandes evoluções no país que não sejam aqueles que aconteceram nas contas bancárias dos mais ricos do país. Sim, a rotatividade PS/PSD (com ou sem muleta) é a variável comum da destruição do país. Sim, a Europa a duas velocidades não funciona e o Estado Social de países como Portugal está a pagar a factura dessa inoperacionalidade. Sim, os transportes da Trofa estão esquecidos. Sim, precisamos urgentemente de mudança.

Mas o que depois me desconsola é olhar para o PCP e ver que as alternativas propostas nos colocam em rota de colisão com uma Europa dominada por blocos centrais. Apesar de não me identificar com as linhas programáticas e ideológicas do partido, aceito como válida a retórica apresentada e subscrevo integralmente a esmagadora maioria das críticas apresentadas.

Paulo Portas disse uma vez que ninguém vai para o PCP para subir na vida. Num raro momento da minha vida, estou em pleno acordo com o irrevogável. E apesar de não me rever no PCP, não tenho dúvidas algumas do patriotismo de se ser militante de um partido estigmatizado e marginalizado por uma sociedade apática. Mas o problema do PCP, na minha opinião, reside na dificuldade de se adaptar programaticamente à realidade actual do país não tanto no campo das ideias mas principalmente no campo do discurso. Seria de esperar que, perante a situação actual do país, se verificasse um crescimento natural de um partido critico do sistema que nos colocou nesta situação. A experiência Syriza na Grécia é a prova de que tal seria não só possível como expectável. Mas o problema do PCP é também o problema de uma esquerda incapaz de criar pontes e de agir como um bloco, um pouco à semelhança daquilo que a direita tem feito nos últimos anos. A verdadeira esquerda está condenada ao isolamento enquanto não for capaz de comunicar de uma forma renovada.

 

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