Europeias 2014: a visita de conveniência de Juncker

Juncker

No dia apontado pela propaganda da direita nacional para a saída da Troika de Portugal (amanhã), apenas mais uma entre as centenas de mentiras que caracterizam a governação Passos Coelho, a nossa cidade receberá uma comitiva da elite social-democrata e centrista, a quem se juntará Jean Claude Juncker, antigo primeiro-ministro luxemburguês, antigo presidente do Conselho Europeu e candidato do PPE (“família” partidária europeia da qual PSD e CDS-PP fazem parte) à presidência da Comissão Europeia. Politicamente a anos-luz da nulidade Barroso.

Quando me dei conta desta visita, confesso que fui absorvido por uma total perplexidade. Que forças se moveram para que Juncker visitasse o nosso concelho, do qual muito provavelmente nunca ouviu falar? Parafraseando Jorge Nuno, cheirou-me imediatamente a “rabo escondido com gato de fora”. Porque de tantos lugares que este destacado burocrata poderia visitar no nosso país, a Trofa não seria, com toda a certeza, primeira, segunda ou sequer décima escolha. Veio-me logo à cabeça Durão Barroso, essa 4 ou 5 escolha do PPE para presidir à CE nos últimos 8 anos. Será que a Trofa irá receber alguma cimeira para invadir algum país?

Como tudo isto não estava a fazer grande sentido na minha cabeça, fui consultar um amigo social-democrata, daqueles que são mesmos sociais-democratas e que não apoiam, pelo menos agora, os aventureiros liberais que descaracterizaram o PSD de Sá Carneiro (apesar dos discursos hipócritas com que alguns desses aventureiros tentam agora, sem sucesso, ressuscitar esta ideologia morta no nosso país) o porquê de tal “honra” (aqui entre aspas porque muitos trofenses, nos quais me incluo, não consideram, com toda a certeza, honra alguma receber este partidário da austeridade e da defesa intransigente do eixo bancário Paris-Berlin que o nosso empobrecimento ajudou a salvar). A resposta dele foi lógica mas, sublinho, trata-se de uma opinião que, pelo menos para mim, faz todo o sentido.

Diz-me o meu amigo que, se o presidente da CMT era já uma vedeta em ascensão dentro do partido, não só pela vitória em contraciclo nas últimas autárquicas mas também porque, à excepção de uma avença controversa no passado esbanjador do PSD no nosso concelho, se trata de alguém sem manchas no currículo (pelo menos que sejam do conhecimento público), Sérgio Humberto poderá agora representar uma ameaça interna aos boys de Passos Coelho, apesar de se assumir “alinhado” com o grande aldrabão. Uma ameaça que ficou clara no último congresso do PSD quando, na posição de outsider, Sérgio Humberto liderou a lista que ficou no terceiro lugar na eleição dos conselheiros nacionais do partido, apenas atrás das listas do sistema, uma liderada pelo patético Relvas e outra controlada pela JSD. Num momento em que a mentira e o clientelismo imperam no aparelho do partido, Sérgio Humberto poderá apresentar-se como alternativa à facção dominante, pelo que é necessário “mimar” o autarca trofense. Um conjunto de argumentos bastante coerente.

De qualquer forma, não passará daqui. Juncker continuará sem saber absolutamente nada sobre o nosso concelho, excepto aquilo que os seus assessores eventualmente lhe sugerirem dizer. Poderá ser uma honra para os seus fãs locais mas não trará absolutamente nada de vantajoso para o nosso concelho, apenas uma avalanche de comunicação social que poderá aumentar as receitas dos cafés e restaurantes locais no dia. Juncker virá cá buscar o seu voto, nada mais.

Quanto aos outros dois fanáticos austeritários pouco há a dizer. O discurso será o do costume com as aldrabices do costume – está tudo a correr bem e a culpa de tudo o que está mal é do PS – usarão uma ou outra expressão a que já nos habituamos na narrativa local, com destaque para o “orgulho trofense” (que aqui poderá assumir a forma de um outro orgulho qualquer), e falarão no esforço que farão para que as obras essenciais ao nosso concelho cá cheguem, ainda que nunca cheguem. No final serão abanadas muitas bandeiras e voltará tudo ao mesmo.

P.S. Amanhã deverão evitar a utilização de fogo-de-artifício. A reacção poderá ser violenta e musculada.

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