A maior feira agropecuária do norte do país

Feira Anual da Trofa

(Fonte: site oficial da Feira Anual da Trofa)

É o que venho escutando por ai. Nem me dou ao trabalho de pesquisar a fundo se é mesmo porque prefiro acreditar que é e que o facto de tal ser algo comumente aceite pelos meus conterrâneos significa alguma coisa. Tantos trofenses juntos não poderão estar enganados.

Este ano fui lá dar a minha voltinha, ainda que com uma equipa substancialmente menor que o habitual, quando alguns tios e primos e respectivas descendências aproveitam a deixa para aceitar aquele convite para o almoço e ver os bichinhos no final. As descendências são as mais entusiastas e os adultos, “académicamente” conhecedores do contexto, observam e comentam tudo com interesse e assertividade. Compram-se doces brancos para a Dona Raquel e regressamos para o lanche. Mas desta vez foi diferente. Desta vez foram afastados pela chuva. Fui eu e o meu pai. E trouxemos o doces.

Do recinto, na minha opinião muito bem organizado, em linha com anos anteriores, destaco duas coisas que me surpreenderam pela positiva: o asseio das áreas onde estavam os animais (acho que em tantos anos nunca vi aquilo tão limpo) e a tenda branca no meio do recinto para os espectáculos musicais. Uma boa maneira de contornar o mau tempo que pode surgir nesta época do ano. Algo que permitiu também fazer uma espécie de after party da Feira Anual, com alguns dj’s trofenses. Mas, de uma forma geral, o evento esteve igual a si mesmo, com um leque de actividades idêntico a anos anteriores.

O grande problema foi mesmo a chuva, que não só afastou os meus tios, primos e descendências como muitas outras pessoas que habitualmente rumam à Trofa por esta ocasião. Notava-se nas ruas a diminuição de carros estacionados, notava-se na feira e tornou-se mais evidente ainda quando a organização se viu forçada a adiar as provas hípicas para o fim de semana seguinte. Foi pena mas nada que nos deva surpreender durante o Inverno.

Provavelmente como forma de atrair novamente muita gente de dentro e de fora da Trofa, pelo segundo fim de semana consecutivo e ainda sob ameaça de mau tempo (pelo menos quando a segunda parte foi planeada), a organização do evento puxou uma cartada alta e contratou, em cima da hora, um dos magos da festa popular: Quim Barreiros. E digo em cima da hora por partir do princípio que a organização planeou a Feira Anual para acontecer entre 28 de Fevereiro e 2 de Março. Era pelo menos isso o que nos dizia o programa oficial do evento. Se assim foi, parece-me lógico não ter havido tempo para grandes negociações. E é sabido que o cachet de Quim Barreiros não costuma ser inferior ao intervalo 6-10 mil euros.

Porque é que isto é importante? Fundamentalmente por dois motivos. Em primeiro lugar porque, ainda que nessa noite o recinto tenha enchido e os comerciantes tenham feito render o seu trabalho, a noite seguinte esteve praticamente deserta. Por volta das 23:30/00h já poucas pessoas restavam no recinto. Ora há aqui um desequilíbrio na oferta: num dia um orçamento “milionário” (são sempre alguns milhares) e no outro um orçamento brutalmente inferior. Será que uma gestão mais equilibrada do valor disponível não permitiria uma cartaz igualmente atractivo em ambos os dias, dando à Trofa duas noites de maior animação nocturna, algo que, é sabido, funciona muito bem com muitas outras terras, dos nossos vizinhos Famalicão, Maia e Santo Tirso até pequenas freguesias como Freamunde, mas que raramente acontece no nosso concelho?

Por outro lado, pensem, por exemplo, na questão da gestão da feira em si. Porquê trazer Quim Barreiros num Sábado em vez de numa Sexta-feira? É que à Sexta-feira, ao contrário do que acontece com alguns funcionários públicos, a maioria dos que ainda têm empregos trabalha. O que faz com que muita gente que lá queira ir tenha que “correr”. E não vou sequer entrar nas pessoas que fazem horas extras, trabalham por turnos, têm filhos para cuidar e outras condicionantes afins. Basta pensarmos que se esse concerto fosse no Sábado, mais gente se deslocaria à Feira, da Trofa e de muitos outros sítios, teriam a possibilidade de chegar mais cedo e, provavelmente, acabariam por consumir mais nos estabelecimentos criados para o efeito. Todos saiam a ganhar. Mas, já agora, com que dinheiro é que um concelho endividado pagou o cachet do Quim Barreiros?

O mais triste é continuarmos a ter “diamantes em bruto” como a Feira Anual ou a Festa da Senhora das Dores, que são grandes eventos e atraem muita gente, mas que continuam a mostrar-se incapazes de passar para o próximo nível, nomeadamente no que toca à população mais jovem, o que passaria obrigatoriamente por uma oferta cultural mais alargada, que acabasse de uma vez por todas com a tendência dos jovens da Trofa para não quererem sair na sua terra. Legitimamente, claro! A oferta nunca foi grande coisa. Outras terras sabem bem colher os frutos do arrojo e da adaptação aos tempos que correm.

E por falar em jovens, tenho uma vaga recordação de uns certos jovens criticarem um certo partido no poder por, imagine-se, gastar muito dinheiro com um concerto em tempos sombrios de austeridade medonha e de divida imensa. Quem seriam esses jovens? Ah História, sua malvada!

Advertisements
This entry was posted in Uncategorized. Bookmark the permalink.

6 Responses to A maior feira agropecuária do norte do país

  1. H.S says:

    Só a título de curiosidade, alguém sabe se existem estudos sobre os impactos (especialmente económicos) a médio-longo prazo do evento?
    E se o número de pessoas presentes é de alguma forma contabilizado?

  2. Por muita razão que possas ter, na minha opinião focas-te no acessório! De que forma este evento contribui para a resolução dos problemas da agricultura do concelho? É que na minha opinião contribui para o agravar da situação! Ao olhar para a Feira Anual como se de uma festa se tratasse, e ao avaliar-la sob essa perspectiva estás tu também a desviar a atenção do que realmente interessa. Abraço

    • H.S says:

      Caro Vasco, tem toda a razão no que diz.
      Longe de mim ver a Feira como uma festa. Apesar de acessório quando comparado com o tema da feira em si, creio ser pertinente contabilizar as presenças (e traçar o perfil se fosse possível) tanto dos participantes como de quem vai assistir à Feira, assim como tirar ilações sobre a mesma.

      Isto vem no seguimento da afirmação de que a Trofa continua “a ter “diamantes em bruto” como a Feira Anual ou a Festa da Senhora das Dores, que são grandes eventos e atraem muita gente, mas que continuam a mostrar-se incapazes de passar para o próximo nível”.

      Só procurava aferir informação, pois nem sequer marquei presença no certame, mas como trofense preocupado com a sustentabilidade, na sua maior abrangência, procurava documentos oficiais, ou não oficiais sobre o evento.

  3. Caro H.S, desculpe a confusão mas o meu comentário é em resposta ao texto do João Mendes e não ao seu comentário! Cumprimentos.

  4. joaquim azevedo says:

    Só não entendo uma coisa: nos principais dias da Feira Grande, 28, 1 e 2, serviu a prata da casa, o nosso grande grupo, Trofense,” A Rapaziada” e depois do dia, melhor no fim de semana a seguir foram convidar o Quim Barreiros e, a uma Sexta Feira não olhando aos seus custos! é caso para dizer que Santo da porta não faz milagre. Mas mais grave é o executivo dizer que não há dinheiro para umas coisas e depois há para outras. Bom, temos que ir vendo o que se passa e esperar que haja informação e transparência nestes e noutros casos.

Deixa aqui o teu comentário...

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s