As falácias (conscientes ou não) que isentam os verdadeiros responsáveis

Crédito Fácil

No meu habitual passeio pela comunicação social local, descobri uma nova cronista do Notícias da Trofa, de seu nome Isaura Ramalho, que se propõe, nas suas crónicas, a fornecer informação útil de foro jurídico, a sua área de formação. Não só me parece uma excelente ideia como o tema abordado na sua primeira crónica, a insolvência das pessoas singulares, me parece um tema extremamente pertinente e actual que desde já gostaria de saudar.

Contudo, talvez por desconhecimento ou, quem sabe, por motivos “ideológicos”, a cronista do NT introduz uma falácia perigosa, a fazer lembrar um determinado tipo de narrativa adoptada por alguns dos verdadeiros responsáveis pela crise, e que assenta no argumento de que “os portugueses esbanjaram mais do que podiam”, ignorando, nesta crónica, diferentes outros factores bem mais relevantes para o entendimento desta problemática, nomeadamente a falta de regras objectivas sobre o funcionamento do sistema bancário, que foi, como é do conhecimento geral, a principal alavanca para a propagação do crédito fácil sem olhar às condições dos seus subscritores.

É evidente que tal “detalhe” não é central na argumentação de Isaura Ramalho no que diz respeito à questão da insolvência da pessoa singular. Contudo, para muitas das pessoas que se deparam com este texto, existe uma mensagem que, consciente ou não, para além de estar longe de uma postura imparcial face ao problema, contribui para alimentar ainda mais o discurso falacioso de que a responsabilidade dessa situação assenta quase em exclusivo no comportamento gastador de muitos portugueses ditos “comuns” quando a ausência de regras bancárias coerentes aliada a um comportamento passivo por parte dos sucessivos governos, vassalos do poderoso lobby financeiro, tiveram uma cota parte de responsabilidade senão maior, pelo menos igual.

A falácia torna-se mais grave quando a cronista emite juízos de valor como “Os consumidores procuraram este tipo de crédito para a compra de bens supérfluos”, uma generalização abusiva que, pela sua natureza “agregadora” se torna particularmente grave por criar uma ideia (falsa) de que a maioria das insolvências desta natureza se resumiram a questões meramente materialistas e superficiais (empréstimos para férias, “compra de bens supérfluos”). Em momento algum é referida, por exemplo, a possibilidade de alguns destes créditos terem sido contraídos para combater uma doença, fazer face a uma situação grave mas pontual e/ou pagar os estudos dos filhos numa universidade. A ideia que fica é a de que fomos uns “esbanjadores” irresponsáveis pois o texto de Isaura Ramalho isenta de culpas a classe política que efectivamente gastou (e continua a gastar) mais do que podia e isenta também o sistema bancário e a sua lógica predatória (é apenas feita uma curta referência à publicidade fácil das “Cofidis” desta vida, sem contudo lhes apontar minimamente o dedo).

São detalhes destes que induzem muitas pessoas em erro e alimentam narrativas que soam a “caixa de ressonância” de determinado tipo de interesses amplamente conhecidos. Houve muita gente que errou na forma como geriu as suas poupanças, mas tal não é mais nem menos verdade do que o facto de terem sido anos de má gestão e má despesa pública a enterrar o país e a colocá-lo numa situação de vulnerabilidade financeira. E não foi o cidadão comum que esteve na base dessas decisões. Esse limitou-se a ser enganado pelas mentiras eleitorais e pelos esquemas clientelistas do costume. Quanto à Isaura Ramalho, serei com certeza um leitor atento! O facto de discordar da forma como colocou o problema (ou da forma como o percepciona) em nada condiciona o “consumo” futuro de uma crónica que me parece um autêntico serviço público para uma sociedade cada vez mais desinformada.

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