Um comício político desnecessário

No passado dia 19 de Novembro, na sequência da sessão comemorativa da Assembleia Municipal da Trofa destinada a celebrar os 15 anos de emancipação concelhia da Trofa, o representante socialista Nuno Moreira Félix chamou a atenção para o facto de tal reunião se ter convertido, e cito, num “comício de campanha do PSD/CDS”.

Como não tive presente na sessão por motivos profissionais, fui ver o vídeo da Trofa TV no qual o Félix afirma residir a prova da sua afirmação supracitada. Baseado apenas e só nesse vídeo, confesso que me inclino para subscrever esta crítica. E nem vou entrar sobre o estranho caso do “pai do concelho”, sobre esse mito já tive oportunidade de escrever.

Vamos ao discurso de Sérgio Humberto (SH). Este começa citar algumas heranças da “era Bernardino” como o saneamento, o alargamento da rede de abastecimento de água, a piscina municipal (leia-se o Elefante Branco), a Casa da Cultura, o melhoramento do parque escolar (obrigado Sócrates?) e outras infraestruturas. Sim, tudo isto é verdade. Mas não é menos verdade que uma parte considerável destas obras se encontra ainda por pagar e que o anterior executivo camarário liderado por Joana Lima contribuiu para a redução da factura.

O discurso de edil continua com uma acusação, a meu ver falsa, de que a Trofa vem “perdendo músculo”, principalmente nos últimos 4 anos. Não concordo por dois motivos: em primeiro porque os números da consolidação orçamental operada pelo anterior executivo contrariam a retórica de SH (sobre isso não me irei alongar tendo já feito referência aqui) e, em segundo lugar, porque parte da inoperância do executivo socialista é explicada pela enorme dívida herdada dos seus antecessores e pela crise económica que o país atravessa, relativamente à qual esta argumentação da coligação não coincide com a argumentação oficial do coligação no governo do país que, se não estou em erro, é pelo menos apoiada pelo PSD Trofa.

SH continua o ataque ao anterior executivo afirmando que “não houve planeamento a médio ou longo prazo”, algo que também não houve no executivo anterior mas que o presidente optou por não referir. No mesmo tom, fala na fuga de empresas para os concelhos vizinhos, algo que também aconteceu com o executivo no qual assessorou Bernardino Vasconcelos e no estado da rede viária, que também era lastimável em alguns pontos do concelho com o primeiro executivo PSD. Tenho que concordar com o Félix quando sugere que este discurso é tudo menos imparcial.

Já na questão do Parque, e até prova em contrário, a argumentação de Sérgio Humberto bate certo com aquilo que vem sendo veiculado pela comunicação social e local. Os atrasos nas obras e o risco de perda de fundos comunitários são reais. Sobre o caso do Parque das Azenhas, muito já disseram os “calhaus com olhos” que gerem este blog. O problema é bem claro e está diante dos olhos de todos. Com ou sem calhaus. No caso da união dos parques Lima Carneiro e Nossa Senhora das Dores, o problema tem sido amplamente difundido. As obras estão atrasadas e tal coloca em risco a viabilidade dos fundos comunitários fundamentais para a conclusão da obra. Nada a acrescentar sobre o óbvio.

O discurso avança para a questão dos Paços do Concelho (o “jardim” onde todos íamos plantar flores mas que ainda ninguém descobriu onde é) que, tal como podemos ver, continua a não existir. Apesar de não ser fã de promessas eleitoralistas que acabam por não se cumprir, aqui dou a mão à palmatória porque o financiamento de uma obra desta envergadura está também intimamente dependente da situação económica do país. A Trofa, fruto da dívida herdada do seu primeiro executivo, está condicionada em muitos aspectos e actualmente sujeita a um “plano de resgate”. Sejamos sérios!

Curiosamente, no caso do metro, SH opta por não disparar contra o anterior executivo, talvez pelas inúmeras promessas de Bernardino Vasconcelos de que tal seria já (em 2009) uma realidade incontornável.

Terminado o tiroteio sobre a governação socialista, o actual presidente da CMT fez algumas considerações sobre trabalho já em curso na autarquia. Cortes em rendas excessivas sobre imóveis alugados à CMT, a opção por promover um funcionário da Trofáguas para substituir o principal gestor que se encontra de saída, cortes em avenças, obras na E.B. 2/3Napoleão Sousa Marques para retirar o amianto de todas as estruturas e o “swap” de rendas excessivas pela reactivação de todos os postes de electricidade do concelho. Eu aplaudo estas medidas mas será necessário invocá-las numa cerimonia desta natureza?

Depois veio o “pai” falar sobre expectativas defraudadas através de uma série de considerações superficiais às quais juntou outras, mais filosóficas, sobre a efemeridade do poder. Ainda no campo filosófico, Marques Mendes continuou num discurso em que deixa a ideia de que o “autarca do futuro”, cujo papel tenderá a distanciar-se da “obra física” e da avaliação pelo “trabalho quantitativo”, passando, ao invés disto, a ser avaliado pela “criação de condições para que um concelho aposte na competitividade, na produtividade, no investimento”, um discurso que serve bem as intenções liberais (que no caso do actual governo são “pseudo-liberais) que marcam a governação de Pedro Passos Coelho , da qual Marques Mendes parece ser porta-voz não oficial.

Para fechar, o NT/Trofa TV aborda  SH sobre um assunto delicado: a reforma do estado que prevê um aprofundamento do processo de agregação/extinção de freguesias e municípios. SH mostra não ter dúvidas referindo que a dimensão do nosso concelho o coloca a salvo do reformismo da outra coligação que ele apoia. Mas mesmo assim, SH tenta afastar-se da reforma governamental afirmando ser da opinião de que o processo devia ter sido conduzido noutros moldes, sem nunca esclarecer objectivamente o que mudaria, um movimento estratégico inteligente.

É nestes moldes que a celebração acaba por misturar a homenagem, o combate político e alguma propaganda. Pessoalmente, acho que numa sessão pública comemorativa da elevação da Trofa a concelho não deveria haver lugar a “troca de galhardetes” político-partidários ou à promoção dos actuais agentes políticos. Mas isso é apenas a minha opinião e quem de direito dirige estes eventos da forma que lhe parecer mais apropriada. Mas tal não nos pode impedir de apontar alguns aspectos que seriam de todo dispensáveis, principalmente quando não dotados de imparcialidade. O ataque de SH ao anterior executivo não deveria, na minha opinião, ser utilizado numa cerimónia desta envergadura, principalmente quando, em muitos aspectos, é pura e simplesmente irreal e falacioso. Lamento que tal assim tenha sido e vejo-me obrigado, no geral, a concordar com o Félix: esta cerimónia cheirou demais a “comício político”. Um “comício político” totalmente desnecessário.

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2 Responses to Um comício político desnecessário

  1. joaquim azevedo says:

    João, gostei, fizeste uma análise com conta peso e medida. Tenho estado sempre presente quando o Nosso concelho,comemora mais um aniversário e nunca vi tal, todas as intervenções eram direccionadas ao executivo anterior, inclusive a seguir ao hastear das bandeiras, aliás tirou-me o apetite e saí para não ouvir tanta barbaridade. Agora resta-nos esperar, mas sempre atentos porque há muito abutre a sobrevoar o nosso Concelho.

  2. Pingback: Dois meses de boas notícias. Queremos outros 46… no mínimo! | …e a Trofa é minha!

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