Meet Jon Pulse

– Tell me how he died.
– No, I will tell you how he lived.
                        (The Last Samurai)

*****

Não quero falar na imensa dor que a tua doença e morte provocaram em todos nós. Os últimos dias já foram suficientemente cruéis para todos, especialmente para ti. Vou-me focar na pessoa extraordinária que foste nestes quase 25 anos de existência que só pecou por curta. Vou por isso fugir a esta triste realidade e tentar fazer como a personagem do Tom Cruise n’O Último Samurai e recordar a pessoa que foste e aquilo que nos deixaste. E tu deixaste-nos muito, meu amigo. Tanto que parece que ainda cá estás.

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Apesar de ser pouco provável, é possível que alguns de vocês nunca tenham ouvido falar do Jon Pulse. Acredito que o nome Vicinho seja de conhecimento mais generalizado. Ou simplesmente João. Mas este foi um João muito especial. Um João alegre, divertido e sempre bem-disposto, que contagiava todos à sua volta com o seu humor. Um puto crescido que não hesitou em mudar-se sozinho de armas e bagagens para o Porto, para estudar e trabalhar ao mesmo tempo, deixando para trás o conforto e a comodidade da casa dessa grande mulher que é a D. Joaquina. Um miúdo que colocou a Trofa no mapa do Minimal Tech, e cuja música facilmente atravessou as fronteiras do país e rápida e naturalmente convenceu a editora alemã Berlin Aufnahmen de que o João era um génio em ascensão e uma prioridade para o reforço das suas fileiras. E tudo isto em menos de dois anos. Pretty amazing, don’t you think?

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Não havia limites para evolução da tua música. Não demorou muito até que a M-nus, uma das maiores editoras mundiais de música electrónica, estivesse a pôr “likes” nas tuas faixas disponíveis no Beatport. Lembro-me bem do dia em que isso aconteceu e o quanto isso significou para ti. Para nós era fácil de perceber porque te superavas constantemente mas a tua fixação no trabalho e a ânsia de fazer cada vez mais impedia-te de ver a tua rápida ascensão com a mesma clareza que nós víamos. Era mais que certo que se tratava apenas de uma questão de tempo até que estivesses a correr a Europa e a espalhar a potência do teu som. A cena electrónica portuense há muito que já se tinha rendido ao homem que apesar da curta carreira insistia em tocar em live act, mostrando a muita gente grande que ter talento e ter nome não eram bem a mesma coisa.

Daí até ao Refresh foi uma questão de poucos meses. Não eras cabeça de cartaz, é certo, mas era já um salto muito grande para alguém que andava nisto há tão pouco tempo. Dois anos antes dessa actuação estivemos lá e tu, que não fazias ideia de nada do que os dois anos seguintes te reservariam, estavas lá como espectador e até foste tirar uma foto com os Extrawelt. Mal sabias tu que dai a 2 anos seriam as outras pessoas a tirar-te fotos a ti!

Mas a música era apenas um fenómeno recente, uma marca que nos deixas e que te imortalizará para sempre. Serás eterno no nosso ouvido. E no nosso coração. Ficam as recordações, os momentos passados juntos, as brincadeiras, as gargalhadas e essa tua capacidade de fazer com que todos gostassem de ti que, por si só, dizia bastante da pessoa que foste e que iremos para sempre recordar.

Depois veio a doença. Foi tudo muito rápido e pouco perceptível. O diagnóstico demorava, as dores nas costas insistiam em não ir embora e a incerteza era muita. No início desvalorizaste. Todos desvalorizamos. Sabíamos que era um quadro clínico complicado, mas tínhamos total confiança na solução. Houveram altos e baixos. E durante os altos tu saltavas da cama e espalhavas a magia no Hard Club ou no Breyner85. A casa enchia, os teus amigos seguiam-te e tu partias tudo. Crescias a cada set. Parecia irreal ver alguém tão novo e com tão pouca experiência a atingir tal nível de excelência. Mas tu superavas-te a cada nova música e o burburinho em torno do menino-prodígio era já demais para ser mera suposição.

Mas nada correu como previsto e a esperança traiu-nos a todos. Lutaste enquanto pudeste, tiveste duas enormes guerreiras sempre ao teu lado mas, infelizmente, a vida não é justa e forçou-te a partir. Deixas para trás um legado na música (que ainda irá “rockar pistas” durante muitos anos) que, apesar da sua qualidade, não tem paralelo com o amigo que todos perdemos. Se os católicos tiverem razão e nós estivermos enganados, deves estar ai em cima a olhar para nós. Nós estamos cá em baixo a pulsar por ti.

Descansa em paz João Vicinho…

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2 Responses to Meet Jon Pulse

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