“E a Trofa também é minha!” – por José Calheiros

calheiros

Caros leitores,

Como sabem, sempre que possível gostamos de vos trazer um ou outro talento trofense que achamos que merecem divulgação neste nosso humilde espaço (e muitos mais talentos existirão certamente e cá os traremos no futuro). Nesse sentido, hoje, venho falar-vos do José Calheiros, autor do livro Venceslau e outras histórias e do blog Escrita com Norte. O José, como provavelmente alguns de vocês já tiveram oportunidade de ler, tem o dom (a palavra “dom” pode ser falaciosa, mas aqui aplica-se na perfeição) de nos textos que cria conseguir juntar o humor, a verdade, a ficção e a sua própria opinião, tudo numa deliciosa mistura a que vale a pena prestar atenção.
Em conversa com os autores deste blog e, curiosamente, por sugestão de ambas as partes, o José Calheiros presenteia, hoje (e não foi de propósito que tal aconteceu perto do nosso 19 de Novembro), o E a Trofa é minha! com um texto inédito da sua autoria, escrito propositadamente para este espaço. Saliento, porque nunca é demais esclarecer isto, que se trata de uma realidade ficcionada, que não deve ser levada à letra, mas que também não pode deixar de o ser. Leiam, tirem as vossas conclusões, e continuem a seguir o trabalho do José porque eu cá só vos trago coisas a que vale a pena prestar atenção!

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E a Trofa também é minha!
por José Calheiros

Nessa noite ouvi: – Sou mais trofense do que tu! Sempre vivi aqui.

Se calhar tinha toda a razão na questão temporal/espacial…literalmente!

Apesar de os meus pais serem da Trofa, eu fui concebido em Viana do Castelo, na primeira noite de lua-de-mel, contam-me eles! A ser verdade, os meus primeiros dias de embrião foram passados fora da sua terra. Durante os nove meses seguintes, sob a forma de embrião e depois de feto, não creio que a minha mãe cá estivesse sempre na Trofa, tenho a certeza de que o meu pai a levava a passear de vez em quando. Ao fim do tempo normal de gestação, a jovem Tininha foi ter-me a Famalicão, onde vivi os meus primeiros dois dias no hospital, e finalmente vim viver para a Trofa aos três dias de vida com o estatuto de ser humano. Desde então, sempre fui para fora, por vezes em trabalho, mas quase sempre de férias.

Se o critério medidor de afinidades for o tempo, essa pessoa certamente é mais trofense do que eu, mas como é que alguém que nunca saiu do seu “ninho” pode dizer tal coisa?! Chega a ser tão absurdo como a passagem biblica, em Génesis 3:5, em que Adão diz: – Eva, nunca amei tanto uma mulher como a ti!

Só quando se vai para fora, ter mundo, por mais ou menos tempo, é que melhor se mede o que sentimos por esta terra e o que esperamos para ela, e de quase todas as pessoas que conheço que se ausentam, a maior parte regressa com saudades, até de passar no Catulo, uma vez…e chega, à hora de ponta!

Mas o dia começou muito…normal…a sair da cama cedo!

Lavo a cara e de seguida, como quem segue uma check-list, abro a portada da janela e vejo o Sr. Libório a passar na rua, na sua “pasteleira”, com umas couves amarradas à mesma. Esta “cena” faz-me esboçar o primeiro sorriso, que limpa qualquer réstia de mau humor. Acelero o passo e mais ou menos meia hora depois estou a sair de casa.

Depois de fazer a Avenida de Paradela a uns aceitáveis 30 km/h, ao entrar na estrada junto ao “Mirandinha”, avisto a dona Maria, senhora com quem me cruzo quase sempre no Carcajoso às oito em ponto, ocasião que aproveito para acertar o relógio

 – Poça! Estou atrasado! – e em concordância com o pensamento, acelero até uns estonteantes e sonolentos 40 Km/h. As pessoas com quem me cruzava olhavam para mim com admiração, estava nitidamente fora de tempo, como já me tinha apercebido quando vi a dona Maria!

Gosto de cumprir o meu papel de formiga e sair de casa à minha hora, é a oportunidade de ver as pessoas com quem me cruzo na estrada desde há muito tempo, mas hoje, desalinhado, gostei de ver o meu amigo Melo, que não via há anos! Atravesso a ponte para o lado de lá e pouco depois estou no trabalho.

No final dessa tarde, de regresso a casa, enquanto ia em direcção à EN14 vindo de Lousado, ia olhando para a margem do rio Ave do lado da Trofa e associava a outras imagens que tenho em mente da nossa cidade vista dos montes que a circundam…até chegar à estrada nacional a Trofa oferecia-se quase perfeita, de repente…uma buzinadela, seguida de outra e começou o “festival”. Estava ansioso de atravessar o sítio onde outrora foi a Ponte Pênsil da Trofa, que em nome do progresso foi substituída pela Ponte de Ribeirão, – Outras mentalidades! – dirão!

Corto à esquerda, acelero, meto a terceira e…abrando! O trânsito está novamente parado..arranca..pára..arran…não, ainda está parado, eeeeeeeee vamos lá…em fila! Eu não me importo, costumo andar devagar, e até é como me sinto mais seguro quando vou num carro conduzido por uma mulher… e é a partir daqui que imagino o que a Trofa poderia ser. Imagino que atravessei uma ponte ao lado da Pêncil, subo em direcção ao Carcajoso e tomo a direcção do Ciclo, na encruzilhada antes do pontilhão imagino aquelas casas de pedra antigas, o cruzeiro e o casario em direcção à Igreja Matriz, protegidos do abandono ou de um outro qualquer interesse e vejo-as recuperadas, atravesso o pontilhão e o que à primeira vista me parecia uma operação stop, eram felizmente só os pais dos míudos a ocupar a estrada enquanto aguardavam. Mas a minha intenção é sempre cortar à direita, atravessar o amplo espaço destinado ao estacionamento que dá acesso à antiga estação, e admirá-la, e ao seu largo onde tudo começou e era ponto de partida e chegada para os trofenses e para quem vinha de fora, e eram acompanhados pelas fachadas antigas das casas que descem rua abaixo até ao Largo de S. Martinho! Ao descer a rua, continuo com o hábito de olhar à direita para encontrar o Celeiro, edifício imponente e marcante que identificava a minha terra, que por um qualquer interesse, que não foi o progresso (ou foi?), deixaram deitar abaixo para construir mais um prédio, igual a qualquer um outro na Amadora, no Mogadouro,…

Quando chego ao Largo S. Martinho, o meu desejo é sempre o mesmo, declarar toda aquela zona como “reserva histórica”, e o mesmo desejava para o Parque, destruído em nome de um qualquer interesse superior…o nosso certamente (e do progresso)!

Entristecido pela ausência do que já não existe, vou directo ao café S. Martinho. Sentado na mesa ao fundo, vêm-me perguntar:

– Café, Calheiros?

– Não David. Quero aquele quadro com a fotografia do Celeiro! – peço, apontando para a parede.

Sem se admirar, como se já fosse comum aquele pedido, o David tira o quadro da parede e traz-mo para a mesa. Fico a admirar a imagem desse edifício, onde em criança tive as primeiras aulas de ginástica e fiquei a saber que não tinha jeito para fazer a roda e evitava a espargata, mas era muito bom a rebolar! Era daí que muitas vezes, à noite, ouvia os sons da nossa banda a ensaiar!

– Psssst, psssst! David! – chamei.

– Café? – pergunta-me.

– Não. Tens alguma fotografia dos coretos?

– Dos coretos, não. Mas tenho do antigo Cine-Teatro Alves da Cunha!

– Não, deixa estar! Felizmente, esse edifício ainda posso ver.

Depois de pagar o consumo do quadro, meto-me no carro e só páro no Miranda. Entro e sento-me ao fundo, de costas viradas para a sala.

– Boa tarde, vai ser o costume? – pergunta-me o Sr.  Carlos.

–  Olá, boa tarde! Não Sr. Carlos, quero aquele quadro com a fotografia do Parque com os coretos!

– É para já. – respondeu-me com a mesma naturalidade a quem lhe pede o jornal!

Já com o quadro na mão, fico a contemplar os coretos e vejo-me a mim e a muitas pessoas que, aos sábados à tarde na festa da Sra. das Dores, assistiam às actuações da nossa banda e da banda convidada.

Ao fim de algum tempo levanto o braço e o Sr. Carlos, lesto, aparece.

– Vai um bola de berlim?

-Não Sr. Carlos, obrigado! Traga-me o quadro da ponte Pêncil, se faz favor.

– Esse agora está ocupado.

Admirado com a resposta, voltei-me para a sala e reparei que quase todas as pessoas acompanhavam o seu café ou chã, com um quadro do que a Trofa já foi…e com saudades do que pode vir a ser!


Mais que o tempo, são as memórias que nos prendem, seja ao que for, e as pessoas, que mesmo inconscientemente marcam o nosso ritmo!

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