O ciclo vicioso do boato

noticia sofia matos

Há quem lhes chame “lições”.Outros “justiça divina” (seja lá o que isso for). A verdade é que existe uma espécie de “princípio de reciprocidade” na forma como certas atitudes e/ou posições geram consequências que, se pensarmos bem, principalmente perante o historial da classe política que domina o nosso país, são, regra geral, previsíveis.

aqui escrevi o respeito que não tenho pela reles política do boato. Uma das visadas do meu texto na altura, Sofia Matos, vê-se agora envolvida numa situação em que os papéis se inverteram e na qual ficou à mercê dessa mesma estratégia rasteira. Segundo a única notícia de que tive conhecimento sobre a situação em causa (e que aqui partilho), a líder da JSD Trofa foi alvo de um mandato de detenção por não ter comparecido em tribunal, num caso em que a mesma se encontra na qualidade de ofendida. A leitura de uma notícia destas, de forma superficial, poderá levar alguém a pensar “olha, foi presa!” quando na realidade se tratou apenas e só de um procedimento normal que se aplica em situações em que se falha duas vezes a uma audiência em tribunal. Pelo menos foi assim que me explicaram, não sou grande entendedor da justiça portuguesa, é uma “ciência” pouco exacta…

Podia estender-me aqui sobre a ironia que é ver uma recém-licenciada em Direito que se coloca numa situação destas porque, convenhamos, trata-se de um caso de negligência, agravado pela formação da visada. Mas o interessante é constatar que ainda esta notícia não tinha sido publicada e já corria uma história sensacionalista que envolvia uma detenção à força com tentativa de resistência às autoridades. Como se anteciparam estas pessoas ao JN? Mais interessante ainda, é ver que algumas das pessoas que tanto se insurgiram contra o boato que se criou em torno do suposto Audi Q7 que Joana Lima não tem, tenham sido as mesmas a fazer correr o dito boato.

O que tiramos daqui?

1. Que as notícias que colocam “a Trofa na comunicação social pelos piores motivos”, independentemente da fonte ser a mesma, têm tratamento parcial por alguns agentes políticos, não em função do bom nome do concelho que sai manchado mas, acima de tudo, por questões de estratégia política focada em denegrir os adversários políticos para lhes retirar credibilidade.

2. Que os mesmos agentes políticos que fazem correr estes boatos (e que não se importam nada de o fazer), e que se colocam numa posição de “vítima” quando os papéis se invertem, se revoltam num acto de indignação hipócrita, de quem estar a ser injustiçado mas que praticou a exacta mesma injustiça.

3. Que as estruturas partidárias são incapazes de consciencializar os seus militantes para a mediocridade de tais acções, que não só se repetem, como alguns dos seus praticantes são mesmo chamados a ocupar lugares de destaque nos órgãos autárquicos. Apesar das consequências políticas óbvias de tais actos.

4. Que o facto de serem parciais lhes retira legitimidade para se indignarem quando são alvo das mesmas práticas a que sujeitam terceiros. Houve um tempo em que se podia dar o dito por não dito. Hoje, na era da comunicação em tempo real, limitam-se a cair no ridículo, expondo-se ainda mais e tornando-se num alvo fácil que apenas contribuí para perpetuar este ciclo vicioso e perfeitamente desnecessário.

Sou terminantemente contra a exploração de uma situação destas, seja o alvo Joana Lima, Sofia Matos ou outro cidadão qualquer. Mas já diz o ditado que “quem semeia ventos, colhe tempestades”. E aqui, as tempestades são colhidas tanto por quem foi vítima do boato, se indignou e agora entra na ironia de usar do mesmo “remédio” contra terceiros, como por quem, tendo usado dessa prática nefasta, se vê agora visada pela mesma e se sente indignada por isso.

Deixo-vos uma questão que se me coloca para quem nela quiser reflectir: caberá na cabeça de alguém que, estando a Sofia na condição de ofendida no caso em questão, haveria lugar a qualquer tipo de resistência às autoridades? Será que isto faz sequer sentido?

Advertisements
This entry was posted in Política do boato and tagged , . Bookmark the permalink.

13 Responses to O ciclo vicioso do boato

  1. Jose Miguel Leao says:

    Meu caro,

    Uma vez mais felicita-lo pela clareza e seriedade na transcrição dos factos, dae toda esta falta de integridade, da dualidade se critérios e comportamentos, como se estivessemos na selva e onde tudo é válido e ninguém restará para nos avaliar.

    Como trofense há muito tempo que ambos lados da barricada só nos trazem uma coisa que é manchar o bom nome dos n/conterrâneos e cidade mesmo não nos representando de forma alguma. Os partidos é que têm a obrigação de policiar os seus J’s de tais comportamentos indignos e embaraçosos para a Trofa.

    Sabe bem ler algo tão cristalino….sim de tão brilhantemente transparente! Sabe horrivelmente saber que isto é a realidade.

    (Deixo-te ditado outrora muito usado: ‘quem tem telhados de vidro, não atira pedras ao do vizinho)

    • João Mendes says:

      Obrigado pelo teu comentário e pelas tuas palavras Zé Miguel 🙂

      Pode ser (assim espero) que estas situações funcionem como um alerta para o futuro de modo que os comportamentos se moldem a uma sociedade mais séria. os partidos têm que fazer o seu trabalho internamente e punir (em vez de premiar) que opta por comportamentos baixos e desprezíveis!

      Um abraço

  2. escumalha do bloco central says:

    e por falar em telhados de vidro, que dizer da ultima novidade?
    A chefe de gabinete de Sergio Humberto é a esposa do director de campanha do PSD Trofa, Fernando Moreira de Sá, que é também dono do Correio da Trofa.
    Incrivel não é?
    Na política os favores são sempre pagos.
    O problema é que somos nós que os pagamos

    • João Mendes says:

      Caro escumalha do bloco central,

      Pelo nome com que assina, pelo tom que usa, pela difusão do boato antes de ele ser notícia e pela falácia que introduz (“O problema é que somos nós que pagamos”) concluo que é um militante/simpatizante socialista e lamento que não o assuma num acto claro da prática que este texto pretende criticar. Não me diga que agora o discurso se inverteu e o “medo” que havia de Joana Lima para que anónimos como você não pudessem dar a cara se transferiu para o Sérgio Humberto!

      Mas como não sirvo interesses, fui-me informar sobre a pessoa em causa (que não conheço). A D. Zita Formoso não é uma “girl” do aparelho partidário da concelhia dominada por Sérgio Humberto, não vai propriamente dirigir uma empresa pública nem é, tão pouco, parente de nenhum membro do executivo. Trata-se de uma pessoa cujo CV fala, antes de mais, por si (vou só mencionar os aspectos mais relevantes entre vários a que tive acesso, por cortesia do marido, a meu pedido):

      • Licenciatura em Gestão (pré-Bolonha) com média final de 16 valores;
      • Pós-graduação em Recursos Humanos;
      • Mestrado em Gestão (pré-Bolonha) com média final de 16 valores e uma tese de mestrado sobre, imagine-se, o III Quadro Comunitário de Apoio às Autarquias Locais
      • MBA em Gestão (feito na Católica, considerada uma referência a nível internacional a nível de MBA’s em Gestão)
      • É ainda doutoranda em Gestão e Economia pela Universidade de Vigo e trabalha numa tese, imagine-se, sobre “Fundos Comunitários nas autarquias locais enquanto factor de desenvolvimento económico e social”;
      • É Técnica Oficial de Contas
      • Na sua função anterior, acumulou a direcção do Gabinete de Fundos Comunitários (QCA III e QREN) com a chefia da divisão de Recursos Humanos na CM da Maia;
      • Durante o período em que exerceu funções na CM da Maia (cerca de 10 anos), a autarquia foi a que melhor desempenho teve ao nível de aprovação e execução de fundos comunitários na Área Metropolitana do Porto e umas das melhores a nível nacional. Só na área da construção, reabilitação e requalificação das escolas da Maia estamos a falar de mais de 20 milhões de euros em candidaturas aprovadas, executadas e terminadas. Sublinho aqui o “terminadas”;
      • Nos primeiros anos de acção, nas revisões de preço das empreitadas de obras públicas poupou, ao Município da Maia, mais de 8,5 milhões de euros.

      Tanto que pude apurar, esta senhora irá auferir um vencimento inferior ao recebido na CM da Maia. Eu não tenho muito como confirmar este dado mas vocês, malta dos partidos, têm sempre maneira de chegar a estes dados pelo que lhe peço, caro escumalha do bloco central, que apure se aquilo que aqui digo é ou não mentira.

      Pessoalmente entendo que este é o tipo de perfil que quero ver a trabalhar para a minha autarquia: gente bem formada, conhecedora da realidade onde vai actuar e, acima de tudo, com provas dadas de competência. É esposa do director de campanha da coligação (e não do PSD Trofa)? É sim senhora. Seria melhor contratar um deputado amigo sem metade do CV? Ou, quem sabe, um boy ou uma girl abanadora de bandeira sem CV nenhum? Ou, melhor ainda, contratar uma sobrinha? Isso é que era uma excelente escolha, não era meu caro? Que se lixem os competentes, vamos mas é encher isto de boys, girls e tachos de todas as cores!!!

      Uma coisa que concordo consigo é que, em política, os favores são pagos. É uma triste história que parece ser regra neste país. Mas aqui, sinceramente, não estou a ver qual é o favor que está a ser pago. Será que contratar, por um salário inferior, uma pessoa que é esposa do director de campanha que terá sido, com toda a certeza, bem pago pelo trabalho que fez, é um pagamento de um favor? Eu não vejo dessa forma. Eu olho para o CV em cima e vejo um dos CV’s mais competentes de sempre no cargo, e não um CV de um político de carreira como a sua antecessora.

      Uma palavra final para o seu comentário sobre “O problema é que somos nós que pagamos”. O meu caro socialista, nós pagamos sempre, ou conhece alguma autarquia em que o presidente não tenha um chefe de gabinete? Melhor: conhece alguma autarquia em que os seus funcionários não sejam funcionários públicos? Já agora, quem paga os funcionários públicos?

      Da próxima vez deixe os seus populismos na parte de fora do nosso blog, vale?
      Regresse cá quando este executivo seguir as pisadas do anterior e comece a nomear boys e parentes para aqui e para acolá!

      Cumprimentos para si e dê um abraço meu ao Pessoa

  3. joaquim azevedo says:

    Todos nós queremos ser cuidadosos com as nossas criticas, mas por muito que queiramos, fugimos sempre para a verdade, a não ser que a intenção não seja acusar ninguém. Acho que devemos falar ou comentar as noticias sem rodeios e com frontalidade. Só conseguimos mudar as nossas mentalidades, quando assumirmos o papel de imparcial e transparente.

  4. Anonymous says:

    Independentemente de ser esposa de A ou B é competente ou não? Não sabem, então aguardem e após terem conhecimento falem ….

  5. Pingback: Manipulação: a propaganda que nos vendem e o mundo real – Parte III: A mulher do director de campanha | …e a Trofa é minha!

Deixa aqui o teu comentário...

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s