A política dos comes e bebes II – A “féta”

Mobilizar “autarquicamente” os jovens é uma tarefa exigente por muitos motivos. Em primeiro lugar porque a esmagadora maioria destes está desencantada e revoltada com o poder político. E com razão. Então essa gente e os seus partidos andam para ai a destruir-nos o futuro e ainda temos que comer tretas eleitorais? Give me a break!!!

Perante este cenário, algo tem que ser feito para tentar conquistar alguns desses votos que teimam em nem se dar ao trabalho de sair de casa em dia de eleições. A abstenção continua a ser o partido mais votado em Portugal e o eleitorado indeciso pode mudar radicalmente o cenário traçado por qualquer sondagem encomendada. Mas se os jovens não acreditam nos políticos (com raras excepções para além dos “aparelhos” das juventudes partidárias pelos motivos que conhecemos), como fazem os partidos para conquistar mais alguns votos? É fácil: fazem a “féta”!

A “féta” é o reino da palmadinha nas costas. Discutem-se alinhamentos regados a cerveja e vinho tinto, criam-se alianças enquanto se degusta um bom chouriço, prometem-se utensílios para a cozinha e recrutam-se colaboradores juvenis. A “féta” pode assumir várias faces. Pode ser um concerto de hiphop para surfar a espuma dos dias. Pode ser o tradicional “convívio” onde se oferecem vários litros de álcool e uma série de bifanas e derivados. Pode ser o ressuscitar de uma festa esquecida como, por exemplo, uma semana da juventude (não sei como é que este exemplo me veio à cabeça…). Pode ser um torneio de futebol, de cartas ou de Pro Evolution Soccer. Podem ser muitas coisas mas o ponto comum entre todas elas é sempre o mesmo: assuntos sérios ficam à porta.

Na Trofa têm havido muita “féta” nos últimos dias. Claro que quem tem mais dinheiro do contribuinte para derreter pode fazer mais “féta”. PS e PSD/CDS-PP não têm ainda programas eleitorais (a menos de 3 semanas das eleições) mas dinheiro e recursos para “féta” não têm faltado. O PS fez uma tainada em S. Martinho, a coligação fez uma tainada no Muro. O PS fez regressar a semana da juventude, a coligação, pela mão da JSD, organizou 4 festas em 4 bares diferentes no espaço de dois fins-de-semana (mais do que nos 365 dias anteriores). O PS apareceu com aulas de ginástica, a coligação, mais uma vez pela mão da JSD, organizou um torneio de futebol.

São jogos de espelhos. As fórmulas são as do costume mas como a malta gosta de ter memória curta podem ser utilizadas por décadas até à exaustão. Claro que quem está minimamente atento percebe que tal não acontece por se procurar servir as populações mas antes porque tudo isto amealha votos. E, no meio de tudo isto, os discursos continuam vagos, os programas eleitorais (com a excepção do BE) continuam com dificuldade para ver a luz do dia, os debates simplesmente não existem e não há, até ao momento, comícios abertos aos cidadãos cujo objectivo seja única e exclusivamente a apresentação e discussão de ideias sem subversões alimentares ou baseadas em ofertas diversas.

Mas será que devemos culpar os políticos por estas práticas? Claro que não! A culpa é nossa que não só consumimos alegremente a “féta” como somos incapazes de pedir mais coerência à classe política. Eles só precisam dos votos e se nós lhes facilitamos a vida, parece-me claro de quem nos devemos queixar…

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10 Responses to A política dos comes e bebes II – A “féta”

  1. Como é evidente, andamos de porta em porta a entregar as nossas linhas programáticas, para esclarecer o eleitorado do nosso Concelho, Trofa, para as próximas eleições autárquicas que se irão efetuar no dia 29 do corrente mês. É lógico que procuramos, com a nossa “modéstia”, verdade e transparência convencer o eleitorado a votar em nós MIT. Temos sido informados de que realmente, distribuem: bifanas, cerveja, sumo, preservativos etc etc, o que nos não espanta, mas a realidade não se resume a esse tipo de caça ao voto, acho que o eleitorado neste momento quer ser mais esclarecido e mesmo assim, não sei se vão votar ou não. Preocupa-mo-nos a apelar ao voto, fazendo um esclarecimento reduzido, ” por falta de tempo” e explicando o porquê da existência do MIT, só que temos uma diferença e esperamos que a população entenda, que o nosso partido é a Trofa e os Trofenses. Acho que conseguimos levar essa mensagem ao eleitorado, mas o sistema e máquina politica tentam ignorar-nos, nomeadamente quando fazem sondagens, porque só falam no PS e Coligação esquecendo o PCP, BE e MIT, será que não vão surgir surpresas? vamos esperar para ver .

    • João Mendes says:

      Olá Joaquim Azevedo,

      Concordo consigo quando diz que o sistema coloca de parte os partidos pequenos. E numa autarquia da dimensão da nossa isso é ainda mais visível.

      De resto desejo-lhe boa sorte para o trabalho que está a desenvolver e faço votos que as vossas intenções cheguem a muitos trofenses!

      Uma pergunta: pretendem apresentar programa eleitoral?

      Cumprimentos

  2. Anonymous says:

    Estamos perante a geração provavelmente mais instruída e menos participativa. A classe política está a sofrer uma descredibilização, e nada está a ser feito para combater esse paradigma, os principais partidos políticos vão-se “substituindo” no governo, e aplicando medidas cada vez mais duras, e no entanto, quando chega a hora de votar acabam por ser esses novamente os mais votados.
    Se formos a ver, a culpa dos partidos oferecerem bifanas, finos e afins em troca de votos, é única e simplesmente, daqueles que lá vão para as receber. Se não vejamos: Já não é a primeira nem segunda vez que os partidos organizam sessões de esclarecimento ou tertúlias onde é dada a possibilidade às pessoas de comparecerem, questionarem e verem esclarecidas as suas dúvidas. O que acontece nessas ações? Simples, as únicas pessoas que aparecem são os que fazem parte dos chamados aparelhos partidários, que muitas das vezes, são chamados à em cima da hora para que não se verifique uma sessão com salas vazias. Outras formas de as pessoas verem esclarecidas as suas questões são as assembleias (de freguesia e municipais). Nestas a afluência verifica-se ligeiramente maior, mas nada de significativo. Em suma, tudo o que não meta festa, as pessoas não aderem, nem participam! Depois queixam-se que os partidos só dão “pão e circo”…
    O concelho da Trofa é um concelho que tem muitos jovens, no entanto, quase que me arriscaria a dizer que é possível contar pelos dedos das mãos quais os que tem uma participação cívica ativa (exceto os jovens pertencentes às “jotas”). Depois, sofrem de um mal, a cassete de “na trofa não se passa nada…” e deparamo-nos com o que se passo na semana da juventude. Mesmo nas circunstâncias em que foi organizada, a afluência foi pouca, e a meu ver, a fraca afluência não se deveu à deficiente comunicação, deveu-se sim, a meu ver ao outro síndrome que os jovens da trofa sofrem “é na trofa? Não é grande cena…” uma atividade com este cartaz organizada em Famalicão, maia ou santo tirso, era logo motivo para se dizer “oh, em X sitio, com meia dúzia de atividades organizou-se uma semana pra juventude… na trofa não se passa nada…”
    Eu também sou um jovem da Trofa e reconheço que posso ter sido um pouco rude na caraterização dos jovens da minha terra, mas a meu ver, as coisas passam-se um pouco assim…
    Ou seja, se os partidos políticos têm que recorrer ao “pão e circo” para que a sua mensagem seja ouvida, então recorra-se! É compreensível que os partidos mais pequenos não disponham de tantas verbas pra o método, no entanto, a meu ver, é errado culpar os outros partidos. A culpa é do povo que dá força sempre aos mesmos, porque se de um momento para o outro o BE, PCP (etc…) conseguissem ter a força do PS ou PSD, iam adotar com toda a certeza, a estratégia do “pão e circo…”

  3. João Mendes says:

    Caro Anónimo,

    Concordo consigo em muito do que diz e faço “mea culpa” da parte que me toca.

    falou em tertúlias e eu acho que elas são raras e aparecem essencialmente em altura de eleições quando deviam ser periódicas ao longo dos 4 anos de cada mandato.

    Um ultimo comentário ao seu (muito bem estruturado, obrigado pelo contributo!) para lhe dizer que se existe esse estigma de que “não se passa nada na Trofa”, ele não existirá à toa. São muitos anos de quase nada para os jovens e restrições tipicas de sociedades excessivamente conservadoras!

    Cumprimentos

  4. ticpgee says:

    Parabéns pelo artigo…

    Caro João,

    Lendo os seus artigos é claro que gosta da Trofa e do país. De facto a classe politica está conotada, grosso modo, com grupos de criminosos. Acredito que muitos deles são honestos mas rapidamente são abafados pelo sistema. Sou daqueles que acredita na democracia e no atual modelo mas ao mesmo tempo penso que será urgente mudar as coisas por dentro. É urgente que quem se sente livre e sem interesses faça o bom combate à corrupção e vá paulatinamente combatendo os poderes instalados. Ainda acredito que o atual estado de coisas pode ser alterado. Fazer politica quase todos o fazem mas de forma ativa muito poucos ousam quebrar o “status quo”. Interessa pois que independentes entrem nos partidos com mais frequência e, como referi, façam essa mudança por dentro. Posso parecer parvo em todas estas considerações mas se assim não for…por favor deixem regressar um Salazar ou terei de concordar com um relatório de um tal governador Romano que a propósito da Lusitânia se referia nestes modos: “É um povo que não se governa nem se deixa governar”

    • João Mendes says:

      Caro ticpgee,

      Antes de mais obrigado pela participação e palavras.

      Eu também acredito que existe gente boa na política e nos partidos. São a minoria mas existem! Os que são abafados pelo sistema também se deixam abafar. Recordo por exemplo o trabalho feito por Honório Novo, Nuno Melo e João Semedo no âmbito das comissões parlamentares de investigação do caso BPN. O grande problema é a forma como os aparelhos dos principais partidos é dirigido e quem os controla. Sinceramente nunca serei capaz de acreditar em PS ou PSD porque são eles quem tem o poder de legislar e a Lei é o que é.

      Eu acredito na democracia parlamentar e representativa mas não acredito no sistema eleitoral promotor do tachismo e das clientelas. Enquanto não houver uma reforma profunda na forma como elegemos os nossos representantes, o status quo não vai mudar.

      Não somos nós que somos ingovernáveis: são os governantes que não sabem governar!

      Cumprimentos

  5. Beatriz says:

    Já tem leitura de fim de semana João Mendes: http://www.unidospelatrofa.pt/ProgramaTrofa2013.pdf

  6. Jeronimo says:

    e aqui as linhas gerais
    http://joanalima2013.pt/

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